
Publicado em 26 de Junho de 2026
A CazéTV igualou a receita da Globo na Copa com um modelo digital e gratuito. Dinheiro de aposta banca os dois lados, FIFA e CBF passaram a enxergar um “conflito de interesses” justamente quando o monopólio ruiu. Os fatos, separados do que é apenas bastidor.
No dia 19 de junho, o jogo entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo entregou um número que, há quatro anos, seria impensável: a Globo somou 51 milhões de pessoas em seus canais e a CazéTV, o canal de Casimiro Miguel no YouTube, foi sintonizada por 37,4 milhões de aparelhos, com 16,1 milhões simultâneos no pico.
Pela primeira vez, a Globo tem um concorrente de verdade na transmissão de uma Copa. E a CazéTV chegou lá com a mesma receita publicitária da emissora, cerca de R$ 2 bilhões em cotas exibindo todos os 104 jogos do Mundial, enquanto a Globo ficou com 55.
Quase no mesmo instante em que o fenômeno se consolidava, dois movimentos começaram nos bastidores: a FIFA passou a falar em barrar a CazéTV da Copa de 2030 e a CBF abriu a negociação da Copa do Brasil e deixou o canal de fora.
Comece pelos patrocinadores. Entre as marcas que bancam os cerca de R$ 2 bilhões da CazéTV na Copa estão casas de aposta: Bet365, Betnacional e KTO. No Brasileirão, o canal carrega EstrelaBet e Esporte da Sorte. E a Globo, do outro lado da trincheira? Também leva bets nas cotas, Betnacional e Betano.
Ou seja: a mesma indústria de apostas que o governo agora diz combater, e que drena a renda das famílias mais pobres, é hoje a espinha financeira da transmissão esportiva brasileira inteira, da gigante na TV ao streaming que a desafia. Dinheiro de bet banca os dois lados da guerra.
Estranhamente, somente a Cazé TV está sofrendo pressão institucional por conta de seus patrocínios, será mera coincidência?
A segunda camada é mais densa. A CazéTV pertence à LiveMode, a agência de Casimiro Miguel. Em 2023, um consórcio liderado pela XP Investimentos e pela americana General Atlantic pagou R$ 2,6 bilhões por 20% dos direitos comerciais da então Liga Forte União, hoje FFU, por 50 anos. Meses depois, os mesmos investidores entraram na LiveMode. E a LiveMode não é uma exibidora qualquer: foi peça central na criação da FFU e é a agência exclusiva que negocia os direitos do Brasileirão de 2025 a 2029, tendo elevado a receita dos clubes de R$ 800 milhões para R$ 1,7 bilhão por temporada.
Junte as pontas e o desenho aparece: a mesma empresa compra direitos, vende direitos e os exibe no próprio canal, enquanto divide investidores com a liga de clubes que está do outro lado da mesa. A conexão, em si, não é ilegal, e não há acusação formal. Mas é um acúmulo de papéis numa mesma cadeia que, segundo os críticos, acende um alerta ético.
Foi esse desenho que a FIFA passou a questionar. Segundo a coluna Outro Canal, da Folha, e o portal Notícias da TV, dirigentes da entidade manifestaram desconforto, em conversas durante a Copa, com o fato de a LiveMode atuar como compradora, vendedora e exibidora ao mesmo tempo. As saídas ventiladas seriam exigir que a empresa assuma um único papel ou condicionar a Copa de 2030 à saída de XP e General Atlantic do negócio.
Dois esclarecimentos importam, e a imprensa é explícita neles. O alvo é 2030, não 2026: a CazéTV transmite o Mundial atual inteiro, sem qualquer restrição. E não há decisão oficial nem acusação formal, o que existe, por enquanto, é conversa de bastidor.
Há ainda uma disputa de poder rodando de fundo. A CBF excluiu a CazéTV da negociação da Copa do Brasil para 2027-2030, citando o relacionamento desgastado com a LiveMode, e articula uma liga nacional unificada a partir de 2030, fundindo a FFU e a Libra, o bloco rival, de Flamengo, Palmeiras e São Paulo. Como a FIFA é aliada da CBF, sua filiada, a proximidade entre LiveMode e FFU vira desgaste extra.
E aqui mora a ironia que nenhum dos lados vai querer sublinhar: foi a própria Globo que, ao abrir mão da exclusividade digital numa renegociação com a FIFA durante a pandemia, abriu a porta para Casimiro comprar a Copa do Catar por US$ 3 milhões e fundar o fenômeno. E foi a própria FIFA que contratou a LiveMode para vender os jogos de 2026. O establishment do futebol abriu espaço para a construção da CazéTV que agora parece querer conter.
Longe de querer fazer uma apologia da CazéTV, nós sabemos que por muitas vezes seus patrocínios e seu discurso podem fazer tão mal quanto os da própria Globo. Mas percebe-se nessa série de movimentações que, ao tirar o monopólio da gigante televisiva, todas as engrenagens parecem ter começado a se mover nos bastidores contra a Cazé TV.
E isso ao menos dá indício de como o que chamamos de “sistema” funciona, como ele se move e opera para proteger aqueles que são forçar consolidadas no mercado daqueles players novos que se destacam no mercado, mesmo que esses players tenham sido, ao menos no passado, aliados políticos.
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