Eles não são inimigos

Publicado em 28 de Maio de 2026

Diante do claríssimo colapso da ordem internacional baseada em regras, a dinâmica da arena internacional vai deixando de ser burocrática, jurídica e voltada para órgãos multilaterais e tribunais internacionais para, cada vez mais, tomar contornos políticos, nos quais amigos e inimigos, parceiros e aliados circunstanciais, começam a aparecer com clareza. Objetivos em comum, agendas de longo prazo e valores compatíveis determinam quem pode ser amigo, aliado circunstancial e inimigo político. É nesse contexto que Flávio foi recebido na Casa Branca e atendido pelo alto escalão do governo Trump, governo esse que está rompendo com a lógica de diplomacia multilateralista para fazer política internacional.

Flávio e Trump trataram de um objetivo comum: combater as facções criminosas da América Latina, que hoje fazem parte de uma estrutura transnacional de distribuição de drogas, tráfico humano entre outras atrocidades. Esse objetivo comum pode articular uma agenda conjunta de longo prazo. Somando isso aos valores que Trump e Flávio professam publicamente, já se torna possível uma aliança na qual ambos se considerem amigos na arena política internacional. E ser aliado político de um agente tão poderoso como Trump não é para qualquer um. E é aí que mora o medo da direita permitida, que tem apreço por dinâmicas políticas mais engessadas, burocracia, privatizações e eficiência.

A mentira mais formidável que a classe falante conseguiu incutir no debate público brasileiro é a de que existe uma direita civilizada, limpinha e técnica, genuinamente disposta a combater pomposamente todos os males da nação brasileira. Quem acredita nessa encenação não percebeu rigorosamente nada da estrutura do teatro de tesouras nacional. Essa tal “direita permitida” nunca foi oposição real; sempre operou como uma linha auxiliar do establishment e cujo único objetivo prático é fingir resistência enquanto asfixia o surgimento de qualquer liderança com capacidades reais de ameaçar o status quo. O incômodo indisfarçável dessa militância de gabinete diante da recente agenda internacional de Flávio Bolsonaro expõe a essência da fraude: o problema deles nunca foi a corrupção, a degradação nacional ou a imoralidade pública, mas o pavor de perder o monopólio de uma oposição que foi desenhada, desde a sua origem, para nunca exercer o poder de fato.

Quando o senador senta-se no Salão Oval com a cúpula do governo Trump para expor o estrangulamento das liberdades políticas no Brasil e propor ações conjuntas contra a expansão do narcoterrorismo internacional — problemas palpáveis e de estrita segurança de Estado —, a oposição neotucana apressa-se em tratar o fato como diminuto, submissão velada ou até uma amenidade cotidiana. A grande mídia, o PT e a direita permitida apressaram-se em diminuir o feito e as possibilidades abertas pela relação estabelecida entre Flávio e Donald Trump. Quase como se agissem em conjunto contra um inimigo em comum de ordem existencial, petistas e a direita permitida estão fazendo um esforço hercúleo para garantir o retorno ao antigo teatro das tesouras, agora entre o neotucanato e o petismo. Talvez petistas e liberais não sejam tão inimigos quanto parece; ao menos não são amigos o suficiente para se unirem contra Flávio Bolsonaro e o bolsonarismo.

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