
Publicado em 20 de Junho de 2026
Todas as pessoas que prestam atenção na história da política nacional sabiam que a relação entre o Banco Master e o governo poderia ir muito além de meros encontros. A PF, quinta-feira, fez uma diligência que começou a descortinar como essa relação se dá. Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, reveladas pelo Estadão, mostram com todas as letras qual era a função de Jaques Wagner no esquema: ser a ponte entre o banqueiro e o Palácio do Planalto.
Em 17 de julho de 2024, o diretor comercial do Master, Felipe Mascarenhas, escreveu a Vorcaro que circulava a informação de que o banco era próximo do governo, “igual aos irmãos Batista” – daquela JBS que o país conheceu no Mensalão. Vorcaro comemora e responde que aquilo era marketing para o banco, e manda repassar o material “pro Lula e pra base aliada”. Mascarenhas devolve: vai mandar “pra tio Guiga e Jaques”.
“Guiga” é Guilherme Sodré, publicitário baiano apontado pela investigação como amigo pessoal e operador financeiro do senador. “Jaques” é o líder do governo no Senado. Em uma única troca de mensagens, o Master definiu o seu cardápio de acesso ao topo da República: os recados sobem através de Jaques Wagner.
Essa é a confirmação de todos que tem olhos para ver vinham dizendo. O senador não é um personagem lateral nem um beneficiário acidental, mas o canal institucional que dava ao banco de Vorcaro linha direta com Lula.
A PF aponta que, entre 2024 e 2025, Wagner recebeu de Augusto Lima e Daniel Vorcaro, direta ou indiretamente, um conjunto de benesses: um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador, R$ 3,5 milhões repassados a uma empresa ligada à sua nora, além de acesso ao avião particular de Augusto Lima à família do senador em diversas ocasiões e ingressos de camarote para shows em Los Angeles e São Paulo, custeados por uma empresa suspeita de auxiliar o Master nos crimes financeiros.
E o que o banco recebeu em troca? Ora, atuação parlamentar sob medida. Segundo a PF, Wagner trabalhou para ampliar o crédito consignado, para elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e acompanhou de perto a tentativa de venda do Master ao BRB – exatamente as três frentes estratégicas para sustentar e, ao fim e ao cabo, socorrer o esquema de Vorcaro.
A defesa do senador apelou à negação genérica ao dizer que ele não tem “nenhuma relação” com Vorcaro, que esteve com ele “apenas duas vezes” e que não pode ser responsabilizado por “conversas de terceiros”. Mas as conversas de terceiros, neste caso, usam Wagner justamente como a correia de transmissão do banco Master ao presidente. Aliás, a explicação para os milhares de euros e dólares em espécie apreendidos não convenceu nem os próprios aliados.
O planalto reagiu, como sempre, como quem tem coisa a esconder. Lula telefonou ao senador para mandar que ficasse firme e, quando Wagner repetiu a frase em entrevista, o entorno presidencial se irritou. O governo não quer ser pego com as calças curtas defendendo pessoalmente o homem que a PF aponta como a ponte de acesso de Daniel Vorcaro até a presidência. Alas da esquerda estão defendendo que Wagner se afaste da liderança, o que, em si, só diz muita coisa: não se pede afastamento de um dos seus se ele é inocente.
No fim o Brasil assiste ao mesmo enredo de sempre. Se tenta esconder, empurrar a culpa para a oposição, negar e contra atacar mas, no fim, a engrenagem acaba exposta de ponta a ponta: a privatização baiana, a exclusividade por decreto, a propina, a atuação legislativa encomendada e, agora, o canal de comunicação com o Planalto formam uma linha reta. O recado era para Lula. E quem o levava era amigo pessoal tanto de Vorcaro quanto do presidente.
O Master é do PT.