O que o McDonald's tem a ver com o PCC?

Publicado em 08 de Junho de 2026

No último domingo, o Poder360 publicou uma reportagem com um dado que chamou atenção pela simplicidade da comparação: PCC e Comando Vermelho estão presentes em mais estados brasileiros do que o McDonald’s.

A comparação funciona porque qualquer pessoa entende o que significa construir uma operação nacional. O McDonald’s levou décadas para chegar onde está. Investiu bilhões, desenvolveu fornecedores, estruturou centros de distribuição, treinou equipes e construiu uma rede capaz de operar em um país de dimensões continentais.

Mas o aspecto mais interessante da reportagem não está no McDonald’s.

Também não está no número de estados alcançados pelas facções.

Está na escala do fenômeno.

Grande parte do debate sobre crime organizado continua concentrada nos aspectos mais visíveis do problema. O noticiário acompanha apreensões de drogas, operações policiais, prisões de lideranças e estatísticas de violência. São acontecimentos relevantes, mas normalmente retratam episódios específicos.

A presença nacional de uma organização é outra coisa.

Ela não surge em uma operação policial nem desaparece na seguinte. É resultado de um processo construído ao longo de anos, que exige coordenação, financiamento e permanência.

Qualquer estrutura que pretenda atuar em escala nacional precisa resolver problemas de logística, comunicação, recrutamento e fluxo de recursos.

Quando PCC e Comando Vermelho aparecem espalhados por praticamente todo o país, a discussão deixa de ser apenas sobre violência. A questão passa a envolver a capacidade de manter operações contínuas, conectar diferentes regiões e sustentar atividades ao longo do tempo.

Esse ponto ajuda a compreender por que a classificação das duas facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos produziu tanto debate nas últimas semanas.

Muita atenção foi dedicada aos impactos sobre bancos, fintechs, empresas e o sistema financeiro.

A reação chama atenção porque organizações com presença nacional não sobrevivem apenas por meio da força. Elas dependem de recursos capazes de sustentar operações distribuídas por diferentes estados. Dependem de mecanismos para transferir valores e ocultar patrimônio.

Em outras palavras, dependem de dinheiro. Muito dinheiro.

Quanto maior a escala da organização, maior a necessidade de estruturas financeiras compatíveis com essa operação.

Talvez seja por isso que a discussão tenha saído das páginas policiais e alcançado áreas que normalmente não aparecem associadas ao tema. O enquadramento adotado pelos Estados Unidos amplia instrumentos de rastreamento, bloqueio e restrição de fluxos financeiros ligados às organizações atingidas.

Nesse contexto, a reportagem do Poder360 acaba levantando uma questão mais interessante do que a própria comparação com o McDonald’s.

Se PCC e Comando Vermelho alcançaram uma presença territorial dessa magnitude, atravessando governos, operações policiais e diferentes estratégias de segurança pública, seria razoável imaginar que essa expansão ocorreu sem uma base financeira igualmente sofisticada?

A notícia não é que o McDonald’s está presente em menos estados.

A notícia é que duas organizações criminosas alcançaram uma escala nacional compatível com estruturas que movimentam recursos, coordenam operações e mantêm presença permanente em praticamente todo o território brasileiro.

E, compreendida a dimensão do fenômeno, fica mais fácil entender por que a discussão deixou de ser apenas policial e passou a alcançar o sistema financeiro.

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