
Publicado em 09 de Junho de 2026
Nas últimas semanas, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos provocou intenso debate no país.
A discussão rapidamente migrou para os possíveis impactos da medida sobre empresas, bancos, meios de pagamento e sistema financeiro. A reação chamou atenção porque a decisão americana não surgiu do nada. Muito antes de Washington adotar essa posição, o próprio governo brasileiro já havia produzido diagnósticos que ajudam a compreender a dimensão alcançada pelo crime organizado.
Em 2024, a Secretaria Nacional de Políticas Penais, órgão do Ministério da Justiça da gestão Lula, divulgou o Mapa das Organizações Criminosas. O levantamento identificou 88 organizações presentes no sistema prisional brasileiro e traçou um retrato detalhado de sua estrutura e capacidade operacional.
O aspecto mais relevante do relatório não está no número de facções, mas na forma como elas são descritas. As organizações aparecem associadas a hierarquia estruturada, capacidade financeira, presença simultânea nas ruas e nos presídios, alianças, rivalidades e expansão territorial. A ampla maioria possui estrutura hierárquica consolidada e poder financeiro relevante.
O documento ajuda a compreender por que o crime organizado brasileiro deixou de ser apenas um problema policial. Nenhuma organização se expande por diversos estados apenas pela força das armas. Ela precisa financiar operações, remunerar integrantes, movimentar recursos, ocultar patrimônio e sustentar sua expansão ao longo do tempo.
Talvez por isso um dos trechos mais importantes do relatório receba tão pouca atenção. Ao tratar das estratégias de enfrentamento, a própria Secretaria aponta três eixos centrais: sistema prisional, ações de segurança pública e combate à lavagem de dinheiro por meio da descapitalização das organizações criminosas.
O ponto é simples. O próprio governo reconhece oficialmente que o crime organizado moderno depende de capacidade financeira, circulação de recursos e mecanismos de ocultação patrimonial. Não é uma avaliação de Washington. É um diagnóstico produzido pela própria administração federal.
Isso torna curioso o rumo tomado pelo debate público nas últimas semanas.
Quando os Estados Unidos classificaram PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, parte da reação política concentrou-se nos possíveis impactos da medida sobre bancos, empresas e sistema financeiro.
Mas o próprio governo já havia descrito essas organizações como estruturas complexas, permanentes, financeiramente robustas e capazes de atuar muito além dos limites de um presídio ou de uma comunidade.
A pergunta que permanece é inevitável.
Se o governo já conhecia a escala financeira, territorial e operacional dessas organizações, por que a principal preocupação demonstrada após a decisão americana não foi a dimensão alcançada pelas facções, mas os possíveis efeitos da medida sobre o ambiente econômico?
O relatório da SENAPPEN não resolve o debate sobre terrorismo.
Mas ele expõe uma contradição difícil de ignorar.
Muito antes da decisão americana, o diagnóstico já estava pronto dentro da própria administração federal. O crime organizado havia sido identificado como uma estrutura com capacidade financeira, influência territorial e presença nacional.
Se esse era o diagnóstico, seria natural esperar que a principal preocupação estivesse nas organizações criminosas.
Não foi o que aconteceu.