Lulinha e o Estado: vinte anos da mesma pergunta

Publicado em 09 de Agosto de 2026

Há vinte anos, quando surgiram as primeiras perguntas sobre a ascensão empresarial do filho, Lula respondeu que nem todo pai tinha um “Ronaldinho” em casa. Era uma tentativa de explicar tudo pelo talento individual de Fábio Luís Lula da Silva. Desde 2005, porém, seus negócios e relações reaparecem próximos de concessionárias, órgãos federais, contratos públicos e pessoas com acesso ao governo do pai.

O primeiro grande episódio foi a Gamecorp. Em 2005, a Telemar, atual Oi, investiu R$ 5 milhões na empresa da qual Lulinha era sócio: parte na compra de 35% da produtora e parte num contrato de exclusividade de conteúdo. A Telemar não era uma investidora qualquer. Era concessionária de telecomunicações, submetida à regulação federal, e integrava uma estrutura societária com participação do BNDES e de fundos de pensão.

Mais tarde, um laudo da Polícia Federal apontou que a Gamecorp havia recebido R$ 103 milhões de seus financiadores, sendo R$ 82 milhões provenientes de empresas da Oi e da Telemar. A companhia afirmou que os valores correspondiam à produção de conteúdo e a direitos de transmissão. O dado político permaneceu: a principal fonte de recursos da empresa do filho de Lula era um grupo cujo negócio dependia de concessões, regulação e decisões do poder público federal.

Agora, Lulinha é alvo de três inquéritos da Polícia Federal autorizados pelo STF. Um apura suspeitas de corrupção e tráfico de influência em uma negociação de cannabis medicinal relacionada ao Ministério da Saúde. Outro investiga possível atuação junto à Dataprev para beneficiar um empresário interessado em contratos públicos. O terceiro envolve suspeita de tráfico de influência relacionada a empresas parceiras do filho do presidente.

Entre os personagens dessa nova fase está Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. A própria defesa de Lulinha informou ao STF que Antunes pagou passagens e hospedagem para uma viagem dele a Portugal, em novembro de 2024, destinada à apresentação de um projeto de medicamentos à base de canabidiol.

Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e investigada por suas relações com o Careca do INSS, afirmou à Polícia Federal que apresentou os dois. Ela também manteve uma relação financeira com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, homem de confiança de Lula e chefe do gabinete pessoal da Presidência até julho. Marcola confirmou ter recebido dela R$ 249 mil, que classifica como empréstimo já quitado. Saiu do gabinete para integrar a campanha de reeleição de Lula e deixou a equipe depois que o caso veio a público.

O valor, por si só, não é a única questão. O problema político está na circulação das mesmas pessoas entre o filho do presidente, um personagem investigado no escândalo do INSS e alguém instalado no núcleo cotidiano do Palácio do Planalto. A mulher que aproximou Lulinha do Careca do INSS também mantinha uma relação financeira com o chefe do gabinete pessoal de Lula.

Os episódios pertencem a momentos diferentes, mas a questão política é a mesma. No primeiro governo Lula, a controvérsia envolvia a empresa de seu filho e uma concessionária regulada pela União. No atual, envolve Ministério da Saúde, Dataprev, um empresário investigado no caso do INSS, uma interlocutora próxima a Lulinha e o antigo chefe do gabinete pessoal da Presidência.

Lula diz que não protegerá o filho. Mas isso responde ao problema? Como pessoas próximas a Lulinha chegaram tão perto de órgãos centrais do governo? Quem abriu essas portas? Quais interesses foram apresentados e quais providências foram tomadas dentro do Estado?

Depois de Telemar, Gamecorp, Oi, Ministério da Saúde, Dataprev, Careca do INSS, Roberta Luchsinger e o antigo chefe do gabinete pessoal da Presidência, a pergunta é simples: por que o Estado brasileiro continua aparecendo no entorno dos negócios e das relações de Lulinha?

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