
Publicado em 08 de Julho de 2026
A audiência pública do United States Trade Representative sobre a tarifa de 25% contra produtos brasileiros foi realizada em Washington sem nenhum representante do governo federal. O Itamaraty simplesmente não se inscreveu para falar. Quem ocupou esse espaço foi o senador Flávio Bolsonaro. A cena resume um padrão que vem se repetindo: diante da paralisia do Planalto, um parlamentar da oposição acaba exercendo um papel que deveria caber ao Estado brasileiro.
Não é a primeira vez. Na discussão sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, enquanto o governo Lula resistia à iniciativa americana, Flávio esteve nos Estados Unidos defendendo uma medida voltada a ampliar o cerco financeiro às facções. Agora, a mesma ausência se repete na área comercial. Com uma diferença importante: havia audiência marcada, prazo conhecido e inscrição aberta para quem quisesse defender os interesses do Brasil.
Esse detalhe importa porque o mundo mudou. A fase em que disputas comerciais eram tratadas como questões essencialmente técnicas, conduzidas por organismos multilaterais, perdeu espaço. Hoje, grandes potências recorrem a tarifas, sanções e restrições econômicas como instrumentos de política externa. Negociam diretamente com quem aparece para negociar. O governo brasileiro, porém, respondeu a essa mudança recorrendo ao Mercosul e aos ritos multilaterais, justamente os mecanismos cuja lentidão já é conhecida.
Essa escolha também produz efeitos políticos. Um eventual tarifaço americano oferece ao governo um adversário externo conveniente. Se as exportações forem atingidas e os impactos chegarem ao agronegócio e à indústria, parte da conta poderá ser atribuída a Washington, desviando o debate das decisões tomadas, ou simplesmente não tomadas, em Brasília.
Na audiência do USTR, Flávio Bolsonaro sustentou uma posição diferente. Classificou a tarifa de 25% como um retrocesso para a relação comercial entre os dois países e defendeu o adiamento da medida por 180 dias, argumentando que o cenário econômico internacional não recomenda a criação de novas barreiras comerciais. Levou ainda um dossiê de 86 páginas para embasar sua manifestação.
Um dos pontos mais relevantes foi a defesa do PIX. O sistema reduziu custos de transação, ampliou a inclusão financeira e se tornou uma infraestrutura estratégica de pagamentos construída pelo Estado brasileiro. Ao defendê-lo perante o USTR, Flávio não protegia um programa de governo, mas um ativo nacional cuja importância ultrapassa qualquer mandato.
As consequências podem ser relevantes. Agronegócio e indústria concentram boa parte da capacidade brasileira de gerar divisas, investimentos e empregos. Uma tarifa dessa magnitude reduz competitividade, dificulta exportações e afeta cadeias produtivas inteiras. Ao propor uma negociação bilateral, Flávio também demonstrou que existiam alternativas além da postura passiva adotada pelo governo.
O contraste ficou registrado de forma pública. Enquanto o presidente viaja pelo exterior defendendo uma ordem internacional cada vez mais distante da realidade geopolítica, a principal defesa comercial apresentada na audiência do USTR partiu de um senador da oposição. Nos registros oficiais do processo constam um pedido de adiamento por 180 dias e um dossiê de 86 páginas protocolados por Flávio Bolsonaro. Do governo brasileiro, não consta nenhuma manifestação. A decisão americana está prevista para 15 de julho.