Até quando o Brasil será aterrorizado pelo crime?

Publicado em 17 de Junho de 2026

Felipe Linares Dell Aquilla, o Don, foi preso no dia 5 de junho nos EUA após tentar fugir da polícia. Na revista feita em seu carro foram encontrados celulares, laptops, dinheiro e até uma pistola 9mm. Sua esposa confirmou que estava sendo mantida em cárcere privado enquanto ele planejava fugir para o México.

Felipe foi identificado pelas autoridades americanas como ex-chefe do PCC e do Comando Vermelho, grupos classificados pelo governo dos EUA, exatamente no dia da prisão, como organizações terroristas estrangeiras. Dell Aquilla tinha mandados de prisão brasileiros desde 2019 – quase sete anos de procura por um dos homens mais perigosos do país.

Essa deveria ser a notícia modelo para denotar a cooperação entre Brasil e EUA no combate ao narcoterrorismo. Mas, como se sabe, o governo Lula se irritou com a classificação. 

A narrativa posta em prática pelo governo brasileiro foi a de que chamar o PCC de “terrorista” seria juridicamente impreciso e abriria precedente para intervenção americana, um remendo de argumento num governo que defende, com muito mais empenho, a integridade de organizações criminosas do que a segurança de brasileiros como o pequeno Bento, de apenas 12 anos, morto no Complexo da Pedreira no RJ por uma bala perdida. Mais um caso com o silêncio conveniente da mídia. Se a morte crimonosa de um menino não é terrorismo, o que é? 

O Instituto Fogo Cruzado registrou, só em maio, 166 tiroteios na região metropolitana do Rio de Janeiro. Foram 115 pessoas baleadas, 66 mortas num único mês. O número de vítimas de balas perdidas cresceu 160% em relação ao ano anterior. Em Costa Barros, na zona norte do Rio, uma disputa territorial entre grupos armados deixou um homem morto, duas mulheres baleadas e um bebê de 1 ano e 3 meses ferido. É possível explicar para uma comunidade que quem atira em um bebê para manter controle de território e a supremacia do seu grupo ao terror diário que isto não é terrorismo?

O Rio é, hoje, o terceiro estado em número absoluto de jovens mortos de forma violenta. Em 2024, foram 1.714 jovens. Luís Felipe, 27 anos, professor de Educação Física, foi baleado num assalto no Aterro do Flamengo depois de sair de um luau. A mãe, com o coração dilacerado, disse que o filho “virou apenas mais um número na estatística.” 

Luís Felipe não aparece em nenhum relatório de inteligência americana. Ele é o outro lado da conta que o “Don” e pessoas como ele abrem no débito do país, conta que é paga em parcelas suficientemente espalhadas pelo calendário para que cada morte, individualmente, pareça apenas mais uma entrada no relatório mensal do Ministério da Justiça.

O Estado brasileiro não controla mais seu próprio território, quanto mais ‘os nossos criminosos’, como disse Lula. O governo não sabe onde estão os criminosos com mandados em aberto, não integra bancos de dados, não coopera com sistemas internacionais. O governo do PT, nas últimas duas décadas, produziu figuras como “Don” e André do Rap, e fica irritado quando outro governo dá nome aos seus próprios bois.

A resistência do governo Lula a chamar terroristas pelo nome não é indicativo de soberania nenhuma. Ela apenas complica o trabalho de quem tenta seguir o dinheiro do crime, seja dentro ou fora do país, para que menos famílias tenham de fazer parte das estatísticas.

O governo pode discutir a definição jurídica de ‘terrorismo’ o quanto quiser. O terror que esses bandidos causam na sociedade brasileira, de norte a sul, é exatamente o mesmo.

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