América Latina vira à direita e expõe a pergunta proibida sobre a influência externa nas eleições

Publicado em 29 de Junho de 2026

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia está longe de ser um fato isolado. É mais uma peça em um movimento que vem se espalhando pela América Latina e provocando desespero na esquerda continental.

Argentina com Javier Milei. Paraguai com Santiago Peña. Equador com Daniel Noboa. Chile elegendo José Antonio Kast. Bolívia derrotando o projeto socialista tradicional. E agora a Colômbia, depois do primeiro governo de esquerda de sua história recente, também decidiu mandar o projeto de Gustavo Petro para casa.

A mídia, como sempre, reagiu com o vocabulário de costume. Quando o povo vota contra a esquerda, o eleito vira “ultradireitista”, “extremista”, “populista”, ou outro rótulo escolhido para descrever a vontade popular quando ela difere da opinião do consórcio midiático.

De la Espriella, conhecido como “El Tigre”, venceu uma disputa apertada contra Iván Cepeda, candidato ligado ao campo de Gustavo Petro. O resultado foi contestado por aliados do governo, que passaram a falar em recontagem e irregularidades. A recontagem oficial, porém, confirmou a vitória, e o próprio Cepeda acabou reconhecendo a derrota — só Petro, o presidente, seguiu falando em fraude sem aceitar o resultado. Nada muito diferente do padrão latino-americano: quando a esquerda vence por margem pequena, é democracia (e quem discorda, naturalmente, anti-democrático); quando a mesma esquerda perde por margem pequena, suspeitar das urnas é que se torna exercício democrático.

Mas a vitória colombiana tem um peso simbólico maior. Petro foi o presidente que, ao lado de Lula, defendeu a legalização da cocaína na América Latina sob o argumento de proteger a Amazônia. A tese, apresentada como uma solução progressista, escancarou a inversão moral de uma esquerda que parece sempre encontrar justificativa sofisticada para normalizar o absurdo.

A Colômbia, país que pagou durante décadas um preço altíssimo pela violência do narcotráfico, decidiu seguir outro caminho. E esse caminho se soma a uma tendência regional que a esquerda tenta explicar como onda de “extrema direita”, quando talvez seja apenas cansaço popular.

Cansaço com insegurança. Cansaço com inflação. Cansaço com corrupção. Cansaço com líderes que falam em democracia enquanto usam o Estado, a imprensa, ONGs e organismos internacionais para blindar seus próprios projetos de poder que muitas vezes parecem mais projetos de enriquecimento pessoal.

É nesse ponto que entra uma pergunta incômoda: o que mudou tão rápido na América Latina?

A resposta mais simples é que nada mudou tanto assim. Muitas dessas eleições sempre foram apertadas. Nas últimas décadas, disputas presidenciais importantes na região foram decididas por margens mínimas. Peru, México, Brasil e outros países já tiveram eleições definidas por diferenças muito pequenas. Quando a margem é estreita, a pergunta deixa de ser se uma estrutura de influência pode mudar um resultado. A pergunta correta passa a ser: quantos votos precisam ser deslocados para alterar o destino de um país?

Muito menos do que a maioria imagina.

E aí surge a coincidência que a esquerda ignora. Em 2025, o governo Trump suspendeu e cancelou grande parte dos programas da USAID, a agência americana que durante décadas financiou projetos, ONGs, programas institucionais e iniciativas de “fortalecimento democrático” em diversos países.

Oficialmente, tudo sempre foi apresentado como cooperação internacional. Na prática, porém, qualquer pessoa minimamente honesta sabe que dinheiro estrangeiro aplicado em sociedade civil, mídia, combate à “desinformação” e instituições eleitorais nunca é neutro.

Durante anos, questionar esse tipo de influência era tratado como teoria da conspiração. Bastava perguntar qual era o papel de organizações financiadas por governos estrangeiros em processos políticos latino-americanos para ser acusado de atacar a democracia. No Brasil, a pergunta voltou ao Congresso: segundo o portal da Câmara dos Deputados, Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado no primeiro governo Trump, reiterou em audiência na CREDN a denúncia de que o governo americano teria interferido nas eleições de 2022.

Mas a democracia, curiosamente, só parece estar sob ataque quando a influência externa não favorece a esquerda.

Quando o presidente do STF, Luís Roberto Barroso, afirmou ter pedido aos Estados Unidos, três vezes, declarações de apoio à democracia brasileira enquanto presidia o TSE, uma delas obtida no próprio Departamento de Estado, isso era defesa da democracia. Quando ONGs financiadas por estruturas externas atuavam no debate público, isso era fortalecimento institucional. Quando plataformas, fundações e agências estrangeiras interferiam no ecossistema de informação, isso era combate à desinformação. Afinal, foi o mesmo ministro que, diante de estudantes da UNE, declarou ter derrotado “a censura”, “a tortura” e “o bolsonarismo”.

E não se tratou apenas de Barroso. Em julho de 2022, segundo a revista piauí, uma comitiva de cerca de vinte líderes de organizações da sociedade civil ligadas à esquerda viajou a Washington para pedir ao Departamento de Estado e a parlamentares do Partido Democrata que pressionassem contra um eventual golpe de Bolsonaro e garantissem o respeito ao resultado das urnas, relato assinado por um jornalista que acompanhou a viagem a serviço do próprio grupo, e que compara o episódio a uma “Operação Brother Sam ao contrário”. 

No mesmo ciclo, segundo a Reuters, o diretor da CIA, William Burns, esteve em Brasília em julho de 2021 e levou a auxiliares diretos de Bolsonaro o recado de que o presidente deveria parar de atacar o sistema eleitoral. Quando a pressão estrangeira corria nessa direção, ninguém na esquerda invocava a soberania nacional.

Agora, quando o fluxo de dinheiro é interrompido e a esquerda começa a perder eleições em sequência, a pergunta reaparece: era tudo coincidência?

Não se trata de afirmar uma relação automática de causa e efeito. Política é mais complexa do que isso. A criminalidade, a crise econômica, a inflação, a rejeição a governos impopulares e o esgotamento do discurso progressista também explicam parte importante da guinada regional.

Mas ignorar o papel das estruturas internacionais de financiamento seria, no mínimo, ingenuidade.

A esquerda latino-americana sempre se apresentou como defensora da soberania nacional. Mas, na prática, nunca teve problema em aceitar apoio externo quando esse apoio servia ao seu projeto.

O discurso anti-imperialista desaparece quando o dinheiro vem embalado em palavras como democracia, direitos humanos, diversidade, meio ambiente e combate às fake news.

O problema é que, por trás dessas palavras, muitas vezes existe uma engenharia política sofisticada. Uma rede de pressão cultural, jurídica, midiática e institucional que não precisa pedir voto diretamente para influenciar uma eleição. Basta definir quais ideias podem circular, quais opiniões devem ser censuradas, quais candidatos são tratados como ameaça e quais pautas recebem financiamento permanente.

Esse é o verdadeiro debate sobre soberania.

A América Latina parece estar endireitando. Talvez porque os povos tenham simplesmente se cansado de governos que entregam insegurança, pobreza e submissão em troca de slogans. Talvez porque o dinheiro externo que ajudava a manter certas engrenagens funcionando já não esteja circulando com a mesma força. Talvez pelas duas coisas ao mesmo tempo.

A Colômbia acabou de entrar na lista. E a esquerda sabe o tamanho do recado.

A pergunta agora é inevitável: se a região está acordando, quanto tempo falta para o Brasil fazer o mesmo?

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