
Publicado em 15 de Junho de 2026
Na sequência da SpaceX, fica uma pergunta que vale mais do que a queixa de sempre sobre impostos. A empresa de Musk só sobreviveu a 2008 porque a NASA assinou um contrato bilionário quando os foguetes ainda explodiam. Por que isso quase nunca dá certo no Brasil?
Nenhuma empresa que fabrica algo difícil — um foguete, um chip, um avião — se sustenta apenas com capital privado nos dez ou quinze anos em que o produto ainda não funciona. É a fase em que o investidor racional foge: retorno incerto e distante demais. Para atravessar esse deserto, alguém precisa se comprometer a comprar o que ainda não existe, antes de existir lucro.
Quem costuma fazer esse papel não é um capitalista visionário. É quem tem horizonte longo o bastante para encomendar o impossível: defesa, espaço, infraestrutura. Quase sempre, o governo. Não por virtude, mas porque o mercado desconta o futuro distante até ele sumir da conta. A função é estreita e nada gloriosa: ser o primeiro cliente, não o dono.
A TSMC, que hoje fabrica os chips sem os quais nem a Apple nem a Nvidia existiriam, nasceu assim. Quando Morris Chang foi montá-la, em 1987, a Intel e a Texas Instruments recusaram: risco demais. Quem pôs quase metade do capital foi o fundo soberano de Taiwan. Bancada a travessia que o mercado recusou, a empresa virou um colosso privado e dispensou o apoio assim que ficou de pé.
É assim em quase toda economia rica, ainda que conte outra história depois de chegar lá. Ha-Joon Chang chamou isso de chutar a escada: o país sobe usando encomenda e proteção e, no topo, prega o livre mercado para quem ainda está embaixo. E não é caso encerrado no passado. Em 2025, o Pentágono virou o maior acionista da principal mineradora de terras raras americana, fixou um preço mínimo para o produto dela e se comprometeu a comprar dez anos de produção, para escapar da dependência da China. O país que nos vende o livre mercado está, agora mesmo, garantindo preço e demanda a um setor que considera estratégico.
O Brasil soube fazer isso uma vez. A Embraer nasceu em 1969 com a Força Aérea como primeira compradora de um avião sem mercado, cresceu com encomenda pública e, em 1994, foi privatizada. Virou a terceira maior fabricante de aviões do mundo. Comprou-se o futuro e, quando ele ficou de pé, devolveu-se ao mercado.
O problema não é que tenhamos parado de tentar. É que, quando o poder público resolve eleger seus campeões e bancá-los com crédito subsidiado, tal escolha quase nunca é feita pensando no país. Pensa em quem está perto do poder e em qual favor será retribuído. O dinheiro que deveria virar desenvolvimento e soberania termina, com frequência, em mais um escândalo de corrupção. Pegamos o instrumento certo e o entregamos à agenda pessoal de quem está com a caneta na mão.
E o mercado financeiro, com o juro real mais alto do planeta, prefere emprestar ao governo inchado a financiar quem constrói. Sobra peso onde atrapalha e falta horizonte onde uma encomenda séria mudaria tudo. Um Musk brasileiro não encontraria, ao lado, nenhuma NASA disposta a bancá-lo nos anos em que ainda não dava certo. Encontraria, no máximo, um padrinho cobrando a parte dele.
Nada disso é defender mais governo – já temos governo demais, e do tipo errado –, é querer um poder público que escolha pelo que será construído, não por quem será beneficiado. Capacidade de construir, o país tem de sobra. O que nunca teve foi quem se dispusesse a comprar o futuro do país em vez do próprio.