Alexandre Silveira, o ministro que ninguém enfrenta

Publicado em 18 de Julho de 2026

Alexandre Silveira não manda mais do que Lula. Seria até reconfortante imaginar que o ministro de Minas e Energia se transformou, por conta própria, em um czar fora de controle. O problema é mais incômodo: ele avança porque o presidente permite, precisa e se beneficia de cada avanço.

Em plena disputa pelo comando do Conselho de Administração da Vale, o gabinete de Silveira solicitou, “em regime de urgência”, uma reunião on-line com todos os conselheiros. A empresa não é uma secretaria do ministério, e seus administradores não são subordinados do ministro. Ainda assim, o pedido foi feito justamente quando um candidato ligado à Previ disputava a presidência do colegiado.

A governança interna reagiu. A área de auditoria e integridade lembrou que a interlocução com autoridades cabia ao Comitê Executivo, não ao conselho. Os assessores jurídicos recomendaram que o ministro fosse consultado sobre a pauta. Não houve resposta. A reunião também não ocorreu.

A defesa do ministério foi quase uma confissão involuntária: afirmou que não houve interferência porque o encontro não aconteceu e que Silveira respeita integralmente a governança da Vale. Mas o fracasso de uma iniciativa não apaga a iniciativa. Um assalto frustrado não se transforma em passeio porque a porta estava trancada.

O episódio tampouco surgiu no vácuo. Desde o início do terceiro governo Lula, o Planalto tenta ampliar sua influência sobre a mineradora. Já houve a tentativa de emplacar Guido Mantega no comando da empresa. Agora, a Previ, dona de cerca de 7% das ações, tenta alterar a liderança do conselho sem, segundo a consultoria internacional ISS, apresentar fatos concretos que justificassem a mudança.

Silveira, por sua vez, já classificou a governança da Vale como ineficiente. A frase revela muito. Para o ministro, uma governança parece funcionar quando facilita o diálogo com o governo — e torna-se defeituosa quando resiste às vontades de Brasília. A independência empresarial, nessa lógica, é tolerada apenas enquanto produz obediência.

É assim que se constrói um czar. Não por decreto, mas pela soma de concessões, silêncios e recuos. O ministro pressiona empresas estratégicas, critica seus mecanismos internos, tenta ampliar o alcance político da União e testa os limites de quem deveria contê-lo. Como quase ninguém reage, cada episódio vira precedente para o próximo.

E onde está o mercado financeiro? Onde estão os bancos, as grandes gestoras, a B3, a CVM e os especialistas que transformaram “governança” em profissão, palestra e apresentação de PowerPoint? Todos são rigorosos quando o alvo é um empresário sem proteção política. Diante de um ministro que influencia concessões, regulações e investimentos bilionários, a indignação costuma ser substituída por prudência remunerada.

Parte da Faria Lima deseja um abraço cada vez mais apertado com Lula. Talvez já esteja descobrindo que, nesse tipo de abraço, é o governo quem decide quando soltar. O mercado que se imaginava parceiro pode terminar como refém sorridente, obrigado a elogiar a própria coleira.

Alexandre Silveira talvez não seja o homem mais poderoso do governo. É apenas aquele que revela, com maior nitidez, como o poder funciona ali: Lula preserva a distância institucional, o ministro executa a pressão e, quando surgem perguntas, uma nota oficial declara respeito absoluto à governança.

Silveira não manda mais do que Lula. Manda em nome dele.

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