
Publicado em 09 de Julho de 2026
O traço inconfundível do eleitor brasileiro atual que se propõe defender o PT e sua suposta justiça social, sobretudo entre universitários e acadêmicos, é a incapacidade de discernir entre a expressão de um estado emocional e a referência a um fato percebido. O que quer que um autor diga é interpretado sempre como manifestação de seus desejos, gostos, preferências, ódios e temores, e nunca como descrição adequada ou inadequada de um dado do mundo objetivo. Isso configura nitidamente um quadro de analfabetismo funcional.
O que hoje se chama “ensino universitário” em terras tupiniquins consiste essencialmente na transmissão sistemática dessa incompetência às novas gerações junto, é claro, da mitologia petista. Crer que o PT de Lula vai combater a corrupção, o crime organizado e promover a prosperidade geral da nação não é caso de ser meramente mal informado, mas crente na mitologia política desenvolvida pelo partido.
É justamente durante os governos do PT que a corrupção nos órgãos públicos tornou-se método de enriquecimento ilícito; igualmente, a impunidade que fez escalar o poder do crime organizado é obra sua. É preciso ter devoção religiosa na crença de que Lula é uma espécie de São Francisco de Assis latino-americano para crer que existe algum interesse na defesa da soberania nacional.
É necessária, além do analfabetismo funcional típico da classe falante, devoção religiosa suficiente para ignorar a realidade nacional, fazer de conta que toda a destruição nacional não ocorreu e não está ocorrendo agora. Os gregos atenienses construíram uma mitologia política para justificar e explicar o funcionamento de suas instituições. Para eles, a história de que seus ancestrais brotaram diretamente do solo da Grécia Ática não era uma metáfora ou uma historinha inventada para enganar os outros: eles acreditavam verdadeiramente nisso, com a força de uma verdade biológica e religiosa que definia quem eles eram.
Essa certeza profunda de ter nascido da própria terra organizava toda a vida da Cidade. Quando os homens livres se reuniam para votar na democracia, eles se olhavam como iguais porque tinham a convicção absoluta de que compartilhavam o mesmo sangue sagrado e nobre da terra-mãe. Petistas ou liberais adeptos da terceira via creem em escalas diferentes na mesma mitologia petista: o primeiro acredita que o PT é o grande defensor da justiça social contra o establishment; o segundo crê que o petismo é imprudente com a política fiscal em virtude de sua veia social.
Ambos, encantados por essa mitologia, não conseguem compreender como o PT ascendeu ao poder através do crime. Os encantados pela mitologia petista precisam ignorar o noticiário diário, a diplomacia do Departamento de Estado dos EUA e o próprio bem-estar da população geral que é oprimida pelo crime organizado e não tem acesso a serviços públicos.
Não é de se estranhar que a sancionada pelos EUA — logo após a classificação do PCC como organização terrorista — Stella Stefanie de Oliveira tenha a possibilidade de responder ao processo em liberdade junto de outros seis investigados detidos na Operação Exchange, mesmo sob a suspeita de atuar como operadora financeira na Flórida, pulverizando dólares em contas bancárias para ocultar recursos da facção.
São tempos estranhos, onde uma acusada de operar a estrutura financeira de uma organização classificada como terrorista tem o direito de responder em liberdade durante a investigação. Como se todas essas movimentações bilionárias não fizessem parte de uma estrutura operacional que possibilitasse o controle territorial, o uso de violência contra cidadãos e até assassinatos nos tribunais do crime.