A conta do supermercado não é sensação

Publicado em 13 de Agosto de 2026

Neste momento, nos mercados de todo o país, milhões de brasileiros fazem, de cabeça, diversas contas de subtração. Tiram a carne e levam o ovo, devolvem o queijo para a prateleira, escolhem entre o café do adulto e o achocolatado da criança porque os dois não cabem na conta. Longe do índice do governo e da manchete da televisão, eles formam o retrato mais honesto da economia brasileira.

O IBGE divulgou o IPCA de julho com alta de 0,07% no mês e 4,44% em doze meses. No mesmo dia, a comentarista Miriam Leitão explicou que os números “nem sempre coincidem com a sensação do povo”, colocando na conta do cidadão o incômodo e a tristeza de se levar cada vez menos pagando cada vez mais. O argumento dos técnicos é que a inflação mede a variação dos preços, não o patamar em que eles ficaram. O problema que sobra dessa explicação para quem desliga a televisão e vai encarar a fila do caixa é que a ideia de que o aperto está na cabeça do freguês.

De acordo com o Dieese, a cesta básica subiu em 17 das 27 capitais em junho e chegou a R$ 965,47 em São Paulo. Para cobrir tudo o que a Constituição atribui ao salário mínimo, uma família de quatro pessoas precisaria de R$ 8.110,92 por mês. E o poder de compra que ainda resta, a dívida termina de eliminar. 82% das famílias brasileiras, 8 em cada 10, estão endividadas e com 29,5% do orçamento comprometido. A Selic está em 14% ao ano, e quem parcela o mercado no cartão paga muito mais.

É essa combinação que produz o desânimo que se sente em todos os setores da sociedade. Mais do que revolta, é cansaço de quem já cortou tudo o que havia para cortar. A conta, para fechar no orçamento do governo, deixou de fechar na casa das pessoas. O governo prefere discutir a variação do mês, culpar o clima, culpar o dólar, culpar o produtor, mas se recusa a mexer no que encarece a comida de forma permanente: o peso dos tributos, o custo do frete e uma política de juros que faz o trabalhador pagar a fatura de uma dívida pública fora de controle.

Apesar de todos esses fatos que, a olho nu, se mostram um absurdo, a imprensa continua noticiando que a leitura predominante entre gestores, bancos e corretoras já é a de um quarto mandato de Lula, com parte do mercado falando em esperar 2030 para ver mudança na economia. A candidatura de Flávio Bolsonaro ainda é tratada com desconfiança, mesmo mostrando uma resiliência monumental como o único capaz de canalizar, não só o descontentamento do povo, mas a vontade de arrumar as contas do Estado – coisa que Lula já sinalizou não ter interesse em fazer.

Quem administra dinheiro alheio tem o direito de não gostar do candidato da oposição, o que não tem é o direito de chamar de análise de risco a escolha de aceitar quatro anos a mais do mesmo arranjo. Quatro anos, na planilha de um gestor, são um horizonte de investimento, mas na casa de quem já trocou a carne pelo ovo, quatro anos podem ser uma criança crescendo com menos comida do que precisa e um pai envelhecendo com uma dívida que não acaba. O Brasil não tem um 2030 de sobra. É importante e necessário que os gestores, os tomadores de decisão, os jornalistas, antes de apoiar mais 4 anos de destruição do país, passem uma tarde no supermercado, olhando o que as pessoas devolvem para a prateleira quando o caixa diz o valor total.

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