A aposta do PT em terminar o que Dilma começou

Publicado em 10 de Junho de 2026

Todo truque de mágica, aquele ato de enganar seu público, consiste em chamar a atenção do público para a mão que agita e enganá-lo com a outra. O governo Lula entendeu isso perfeitamente e, enquanto o país discute um tarifaço que não existe, o governo alcançou 33 medidas de aumento de gasto ou renúncia de receita só em 2026, num total de R$ 215 bilhões. A PEC da gastança de 2022, que na época parecia o fundo do poço da irresponsabilidade, liberou R$ 168 bi.

E quase nada disso aparece onde deveria aparecer. Do total, apenas 4% são marcados no arcabouço fiscal, a peça de ficção que substituiu o teto de gastos. O resto circula como empréstimo subsidiado que tecnicamente não é despesa (o subsídio a caminhões, por exemplo, sai do Orçamento como “crédito” e nunca mais volta), como fundo público abastecido por atalho (o dinheiro esquecido dos correntistas pulou o Tesouro e caiu direto no FGO do Desenrola, porque passar pelo caminho certo estragaria o resultado primário), e o velho crédito extraordinário para tudo o que não couber nos dois primeiros. As regras fiscais seguem sendo cumpridas no papel, justamente porque o papel aceita qualquer coisa.

O brasileiro mais velho já viu esse filme. Foi chamado de “pedalada fiscal”, estreou no governo Dilma e terminou em recessão, desemprego e impeachment, mas dessa vez cada bondade tem uma justificativa técnica própria desenhada com números e propaganda, um conjunto que, à vista de qualquer um fora do TCU, denuncia a intenção. Trinta e três medidas razoáveis que, por uma coincidência incrível e mágica, vencem todas em ano de eleição.

E o repertório eleitoral não para no Orçamento. A pauta do fim da escala 6×1, que veio da base do governo como se fosse a grande urgência nacional, foi abraçada pelo presidente e seus marketeiros como a bondade perfeita, porque o pagador é o brasileiro, mas o brasileiro do futuro. Reduzir a jornada, hoje, não custa um real ao Tesouro – custa ao dono do mercadinho, da farmácia, da lanchonete que funciona no sábado, gente pequena demais para ter lobby e grande demais para sumir da estatística quando fechar. O micro e médio comerciante vai ter que cobrir os mesmos turnos com mais contratações e o mesmo caixa. Todo o bumbo batido no congresso sobre a ‘conquista social’ desse mecanismo deixa de lado como é que a grande maioria dos empreendedores brasileiros, que vão ter de demitir ou fechar suas portas, vai digerir isso. Mas esse é um problema que só vai eclodir após as eleições – no cálculo eleitoral, é uma jogada perfeita.

A lógica que foi desenhada para salvar o governo Lula dessa impopularidade enorme emprenhada na sociedade, foi empurrar o custo para onde o eleitor não vê antes de outubro. Mas até o brasileiro menos versado em economia começa perceber que só um ator pode ser o culpado. O petismo aposta que o cidadão é incapaz de perceber quando é passado para trás, mas até o mais ingênuo dos brasileiros faz conta todo fim de mês. A fatura dessa esperteza tem endereço certo, mesmo que a data seja flexível. A crise que nos deu uma nova década perdida vai chegar de novo. E, dessa vez, nem vai precisar bater. A porta, graças ao desespero e inépcia do governo Lula, já está aberta.

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