Um ‘dark horse’ contra a cleptocracia

Publicado em 19 de Maio de 2026

Em dezembro de 2024, Guido Mantega agendou para Vorcaro uma reunião com o presidente. Mantega, vale dizer, recebia R$ 1 milhão por mês como “consultor” do Master. Estavam presentes Rui Costa, Alexandre Silveira e Gabriel Galípolo, que em semanas assumiria o Banco Central. Vorcaro contou que o BTG queria comprar seu banco por R$ 1 e perguntou se deveria aceitar. Lula xingou Roberto Campos Neto, xingou André Esteves e aconselhou o banqueiro a ficar com o Master, prometendo que a chegada de Galípolo ao BC mudaria o cenário. Vorcaro saiu da reunião e mandou mensagem para a namorada: “Foi ótimo.”

Dez meses depois, o Banco Central liquidou o Master. Vorcaro foi preso tentando fugir do país, acusado de fraudar o Fundo Garantidor de Crédito num rombo de R$ 47 bilhões. O conselho de Lula, que impediu uma solução de mercado quando ela ainda era possível, contribuiu diretamente para a catástrofe. Mas ninguém na grande imprensa chama isso de escândalo. Escândalo, para eles, é Flávio Bolsonaro ter buscado patrocínio privado para um filme sobre o pai.

A teia entre o PT e o Master vai muito além de uma reunião secreta. O escritório de Lewandowski, saído do Ministério da Justiça, embolsou R$ 6 milhões do banco. A Biomm, fabricante de insulina cujo maior acionista é o fundo Cartago de Vorcaro, fechou R$ 303 milhões em contratos com o Ministério da Saúde, e Lula inaugurou pessoalmente a fábrica. A nora de Jaques Wagner recebeu R$ 11 milhões do Master via BK Financeira, empresa fundada no mesmo ano do contrato. Wagner, aliás, foi quem indicou Mantega ao banco. Tudo em família, tudo com dinheiro público ou de instituição fraudulenta, tudo sob os olhos do governo.

E a resposta da direita a esse cenário? Autofagia.

Zema classificou o áudio de Flávio como “tapa na cara dos brasileiros de bem”. Em Santa Catarina, “conservadores” passaram a namorar o PSD de um dia para o outro. A fila de desertores se formou antes de qualquer investigação formal, com base num áudio em que um filho cobra de um investidor o cumprimento de um contrato de patrocínio privado, sem Lei Rouanet, sem dinheiro público. O próprio Vorcaro, nas mensagens, tratava o aporte como transação comercial com expectativa de lucro, e o dinheiro transitou por um fundo de investimento legítimo nos Estados Unidos que reunia dezenas de investidores. A produtora disse que não recebeu nada de Vorcaro diretamente porque não recebeu mesmo: o financiamento veio do fundo, não da conta pessoal do banqueiro. Ninguém mentiu. Mas a verdade importa pouco quando o objetivo é criar uma narrativa de equivalência moral entre um patrocínio de cinema e a captura sistêmica do Estado por um partido.

Enquanto a direita se devora, Jair Bolsonaro, de tornozeleira, disse ao filho para ficar firme. Que não havia nada de errado. Que Michelle não entraria na disputa. O patriarca, condenado e em prisão domiciliar, mostrou ter mais espinha dorsal do que o campo inteiro que supostamente o apoia. Porque ele, melhor do que ninguém, entende que quando o inimigo ataca, você não se flagela em praça pública, você aponta para onde mora o inimigo – uma lição que os moralistas de ocasião se recusam a aprender. 

Para quem não entende muito de inglês, ‘Dark Horse’ significa ‘azarão’, aquele que disputa contra todas as chances. A direita brasileira sofre de um vício mais antigo que o PT: o de cavar a própria cova por purismo performático. A cada crise fabricada, uma fatia dos conservadores corre para provar que é mais limpa que o adversário, sem perceber que nesse jogo quem pede desculpa primeiro perde. Se a direita não parar de fuzilar os seus pares, Lula seguirá operando o Brasil com a cleptocracia que já construiu, com ou sem filme sobre Bolsonaro.

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