Slogan não evita enchente nem resolve seca

Publicado em 20 de Agosto de 2026
Existe uma bomba-relógio instalada no Brasil. Ela está enterrada na infraestrutura que ninguém vê — ou melhor, naquela que o eleitor só lembra quando o desastre bate à porta. De tempos em tempos, especialmente em período eleitoral, a questão hídrica volta ao centro do debate. Quando a água falta na torneira ou invade as casas, a política transforma a dor coletiva em voto. Mas a pergunta essencial é outra: por que continuamos reféns da má qualidade de algo tão básico?

A polarização divide a gestão hídrica em dois dogmas: a privatização que resolve tudo de forma mágica, de um lado; e a tese de que só o Estado protege o cidadão, do outro. Os fatos, porém, desmentem as duas cartilhas.

Olhemos a tragédia do Rio Grande do Sul. O sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, operado pelo poder público, colapsou por falta de manutenção básica: das 24 estações de bombeamento, apenas três funcionavam plenamente, além de geradores sucateados e comportas quebradas. Anos de negligência de gestores de diferentes partidos mostraram que a tragédia, embora natural na origem, teve assinatura política.

Em São Paulo, a discussão vira jogo de empurra — como já ocorre na campanha eleitoral que acabou de começar —, mas a realidade exige análise técnica. A situação atual não repete simplesmente a seca de 2014. Há dez anos, a infraestrutura da Grande São Paulo dependia quase que exclusivamente do Cantareira. Hoje o sistema é mais interconectado, com novas obras de transposição e reservatórios. O desafio agora é outro: o impacto do El Niño, que altera padrões de chuva e seca de forma imprevisível, e a sequência de anos atípicos cobram um preço alto. O ponto central não é atacar a concessionária ou defender governos, mas reconhecer que sistemas desse porte exigem investimentos contínuos, planejamento de longo prazo e regulação estatal rigorosa. Cada um fazendo o seu papel. 

A verdade inconveniente é que a questão central não é o CNPJ do prestador, mas a capacidade do Estado de fiscalizar. Sem agências reguladoras autônomas e ativas, qualquer modelo desmorona. No campo privado, redes frágeis priorizam o retorno imediato sobre investimentos complexos. No campo estatal, o serviço vira refém do contingenciamento de verbas, do aparelhamento político e do desinteresse por obras “invisíveis”, como tubulações sob a terra.

Isso fica ainda mais claro no semiárido nordestino, onde a escassez é rotina secular. Em regiões geridas por estatais, o racionamento sai no diário oficial com naturalidade, e a “emergência” da Operação Carro-Pipa já dura mais de uma década. A Transposição do São Francisco, obra pensada por Dom Pedro II, arrastou-se entre adutoras incompletas e falhas estruturais, ajustando cronogramas ao calendário eleitoral. A água só vira escândalo quando há culpado político útil; quando não há, vira paisagem.

A infraestrutura hídrica tornou-se a mercadoria eleitoral perfeita porque lida com uma experiência direta. Abrir a torneira e não ver sair uma gota torna-se indignação, vídeo no celular e voto. Enquanto o debate público continuar preso à guerra pelo voto, continuaremos remediando secas e enchentes com desculpas. O eleitor precisa deixar de comprar slogans e passar a exigir métricas concretas: quanto foi investido em prevenção, como andam as auditorias e se o órgão regulador defende de fato o cidadão. No final, pouco importa quem opera o sistema. O que importa é a água chegar; é conter a enchente.

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