Pobreza importa

Publicado em 22 de Setembro de 2026

Desde os anos noventa, petistas prometem moralizar a política, usar o aparato estatal para caçar corruptos e acabar com a pobreza e a miséria. Chegaram ao poder no início do século vinte e um, com a esquerda desacreditada e aparentemente desarticulada; a queda do Muro de Berlim parecia ser um golpe fatal para a esquerda internacionalmente, mas, ainda assim, Lula foi eleito no ano de 2002. 

A esquerda que parecia sustentada por aparelhos teve ascensão implacável na América Latina, com membros fundadores do Foro de SP chegando à presidência de seus respectivos países: Fidel Castro, Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales, Daniel Ortega, José Mujica, Cristina Kirchner e Michelle Bachelet. Todos ocuparam o mais alto cargo de seu respectivo país. Todos prometeram combater a pobreza, a desigualdade e promover a integração política e econômica na América Latina, integração essa que traria um mundo de possibilidades e toda a região poderia se rebelar contra o imperialismo.

Instrumentalizando e praticamente monopolizando esse discurso –  prometendo erradicar a pobreza e se rebelar contra o modelo das elites –, os comunistas do Foro de SP chegaram ao poder em seus respectivos países. 

E, após vencer cinco eleições e permanecer no comando por quase vinte anos e por quase todo o tempo transcorrido no século vinte e um, o PT entrega um Brasil com população adulta endividada, famílias que não têm economias para terminar o mês e uma corrosão do poder de compra que há muito não era vista no país. Lula e o PT instrumentalizam a luta contra a pobreza e a miséria em um período histórico de aparente vitória da ideologia da sociedade aberta, em que o mundo parecia ter testemunhado o fim da história e o último homem.

Porém, não é da essência do político buscar adequar-se exclusivamente ao desenvolvimento econômico e aos interesses do capital. Há um incômodo instintivo, um desajuste no discurso liberal cientificista que matematiza a economia e reduz o bem comum à prosperidade econômica. Esse incômodo decorre do fato de que a política, em seu fundamento existencial, exige uma dimensão de solidariedade, provisão e pertencimento que escapa à percepção materialista liberal e às pretensões utópicas socialistas. 

O filósofo e jurista alemão Johannes Althusius (1557 – 1638) é um autor que pode trazer uma perspectiva singular a respeito do que é o político. Para ele, a política é, por definição, a arte de unir os homens para estabelecer, cultivar e conservar a vida social. Em contraste com a burocratização liberal ou com a frieza da tecnocracia, Althusius compreende o corpo político como uma associação viva em que os indivíduos, reconhecendo sua radical insuficiência natural, unem-se para suprir suas vulnerabilidades materiais e espirituais. 

Diante de uma insuficiência natural, o homem busca associar-se para suprir suas mais variadas necessidades e cria projetos de vida comum. Nesses projetos, é esperada a possibilidade de justiça, não uma partilha utópica de víveres ou uma tentativa de construção de um paraíso terreno. Por isso, é natural ao homem buscar o combate à miséria dos seus compatriotas e levar certa justiça àqueles que padecem de desamparo material ou espiritual.

Que a instrumentalização desse senso de justiça ensine à nascente direita brasileira que a pobreza importa, e não por motivos eleitorais e eleitoreiros, mas para trazer justiça ao ambiente político e impedir que psicopatas venham a capturar e monopolizar essa causa justa.

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