
Publicado em 02 de Outubro de 2026
No início do ano, o PT comemorou a escolha de Flávio Bolsonaro. Viam nele o adversário ideal: sem biografia própria, sem vitrine de governo — o tipo de nome que se enfrenta sem suar a camisa. Foi essa a versão plantada na imprensa. Até essa narrativa, porém, pede ceticismo: podiam estar forçando outra escolha de forma dissimulada, enquanto torciam para que o sobrenome Bolsonaro ficasse fora das urnas.
A resposta veio ontem. Lula vestiu o figurino de fujão. Trocou o confronto direto nos estúdios da TV Globo pela poltrona amena do Flow Podcast, transmitido no mesmo horário justamente para escapar do olhar direto do eleitor. Fugiu da verdade mais uma vez.
Perguntas incômodas ensaiaram surgir na entrevista, feita no conforto do Palácio do Alvorada — vale lembrar que Bolsonaro foi proibido de fazer transmissões ao vivo do Alvorada na campanha de 2022. Sem tréplica, sobrou discurso fácil e distante da realidade.
Lula falou o que quis, sem contestação. Justificou a ausência no debate alegando que o formato é “infrutífero”, um palco para “gracinhas”, e que já é suficientemente conhecido. Uma farsa com a narrativa sob controle. A dívida pública recorde, os 80% de famílias endividadas e o avanço de facções criminosas sobre territórios inteiros ficaram praticamente sem respostas
Sem a pressão do contraditório, o escândalo da Previdência virou quase um detalhe. Nenhuma turbulência sobre o papel de Frei Chico no afrouxamento das regras que dificultavam os descontos sindicais, nem sobre a proximidade de Lulinha com o “Careca do INSS”, chefe da quadrilha que assaltou o contracheque dos aposentados. Roberta Luchsinger, a lobista que fez 40 reuniões fora da agenda oficial, falando como sócia de Lulinha, foi mais uma vez tratada como uma pilantra desconhecida.
No caso do Banco Master, Lula também tentou esconder que o ovo da serpente foi chocado na administração petista na Bahia, impulsionado pelas concessões do Credcesta e pela venda da Ebal. A versão do presidente tampouco foi contestada.
Mas não bastava apenas dar a Lula um palco sem contestação. Nos bastidores, o sistema reescreveu as regras do debate a favor dele. A ata do debate da Globo, assinada pelo próprio PT, previa que o púlpito do ausente ficaria vazio e daria 30 segundos para perguntas de outros candidatos ao fujão. Esse trecho foi atropelado por uma liminar de uma ministra do TSE — petista declarada oriunda do Ministério da Justiça de Flávio Dino, o mesmo que Lula indicou ao STF. A decisão transformou o púlpito vazio num risco de desgaste que precisava ser neutralizado. Para fechar o cerco, o Judiciário ainda impôs um braço auxiliar no palco – o candidato Ranan Santos (Missão) – para preencher o vácuo, garantir os ataques ao adversário e blindar o presidente.
Atropelada por manobras judiciais a uma hora de ir ao ar, a Globo se deparou com a “democracia relativa” que ela própria ajudou a alimentar. Cancelou o programa por insegurança jurídica. O regulamento só valeu até deixar de servir aos interesses do presidente.
O episódio escancarou a estratégia petista: a recusa do confronto direto e a dependência de um ecossistema institucional sob medida para blindar a narrativa de desgastes. Na disputa pelo poder, a busca pelo eleitor foi substituída pelo controle de danos — onde a narrativa vale mais do que os fatos, e a proteção do sistema se torna o principal trunfo eleitoral.
Lula, mais uma vez, fugiu da verdade.