Pleno constrangimento

Publicado em 21 de Setembro de 2026

Depois de tudo o que se viu na última sessão do STF, qualquer um que ainda fale em “instituições solidificadas” precisa urgentemente de um check-up mental. E não é de rotina. É daqueles de emergência.

A Corte se reuniu para decidir se investiga ou não um de seus próprios ministros. Resultado: ninguém decidiu nada. Teve declaração de impedimento, suspeição por foro íntimo, bate-boca aberto, questão de ordem, pedido de vista e placar de 4 a 3 sobre se os casos andavam juntos ou separados. O mérito — aquele detalhe de 52 mensagens trocadas, contratos de R$ 131 milhões e R$ 50 milhões com o escritório da esposa de um ministro e a pergunta “acha que segunda já tenho que estar fora?” — ficou para depois. Preferiram discutir os ritos. Como se o problema fosse a forma e não o conteúdo. A cereja do bolo: o possível investigado votou para não ser investigado. Não que isso surpreenda, afinal o mesmo ministro, em outros processos, agiu como vítima, investigador e julgador. Coisas da peculiar democracia brasileira.

Então um vídeo é divulgado: Alexandre de Moraes e a esposa aparecem descendo de um jatinho Legacy 650 ligado a Daniel Vorcaro, no Santos Dumont, com seguranças carregando as malas. Três meses antes, segundo a PF, o escritório havia fechado um contrato de R$ 50 milhões com a empresa do mesmo banqueiro — parte do pagamento em cotas do jato e do helicóptero. O ministro, em nota oficial emitida pelo próprio STF, tinha sido categórico: jamais viajou em avião de Vorcaro. As imagens desmentem a nota.

A defesa diz que o segundo contrato nunca existiu. As mensagens do celular do banqueiro preso dizem o contrário. Ele pergunta: “Eles não estão usando?”. A resposta vem clara: “Já usaram aviões e helicópteros”. E ainda pede para reforçar o contato, para que o casal possa continuar utilizando. Gentileza de quem entende de relacionamento institucional. Não é nenhum favor, é o cumprimento de um contrato. 

O mais irônico é o timing. A sessão acontece em pleno calor do debate eleitoral, com a Corte rachada ao meio e ministros se acusando de viés político em público, ao vivo e em cores. O presidente da corte abre falando que não se julgam pessoas, mas fatos. Ótimo discurso. Só que os fatos estão todos sobre a mesa: contrato polpudo, mensagens de gratidão, encontros, pedidos de intervenção e a negativa categórica, agora desmentida por uma imagem à vista de todos.

A resposta institucional veio com a mesma naturalidade que a imprensa trata de “aliados” na mais alta corte: um deles faz um pedido de vistas a jato. Porque, no Supremo, quando a casa pega fogo, pedir mais tempo para ver se alguém para de prestar atenção até a poeira baixar é estratégia. Até 90 dias, se quiserem. Tempo suficiente para a eleição passar.

No fim, o que sobra é um triste espetáculo farsesco. Uma Corte que se apresenta como guardiã da democracia, mas que, na hora de olhar para um dos seus, transforma uma sessão em um verdadeiro barraco. O jatinho, esse, pelo menos chegou ao destino. O julgamento, esse, deve demorar. E os “aliados” parecem torcer para que ninguém mais tenha interesse no assunto. 

Se isso é preservação das instituições, alguém precisa atualizar o conceito. Porque o que se viu não foi julgamento. Foi uma bela empurrada com a barriga.

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