Os novos órfãos

Publicado em 20 de Outubro de 2026

Se Lula perder no dia 25, haverá quem anuncie o fim do petismo. Entre os mais barulhentos, porém, haverá gente que terá perdido a razão de existir. Passaram anos vivendo de apontar o inimigo. Construíram audiência, conquistaram espaço e fizeram carreira. Quando se pergunta o que pretendem colocar no lugar, a desenvoltura é substituída por mais barulho.

Não é todo crítico do PT que entra nessa conta. Há quem combata o petismo e discuta o tamanho do Estado, o custo do capital, a legislação trabalhista, a segurança e a educação básica. O problema está em quem cresceu inteiro dentro do antipetismo e nunca saiu de lá. Aprendeu a explorar a rejeição, mas pouco construiu.

Essa gente precisa de um culpado permanente. Alguém que explique todas as frustrações, concentre a revolta e mantenha o público mobilizado. Se Lula sair de cena, será necessário preencher a vaga. Eduardo Bolsonaro ou qualquer movimento que escape ao controle do grupo poderá servir. O próximo inimigo será escolhido pela utilidade que tiver para sustentar o discurso.

O método é conhecido. Uma divergência vira suspeita de caráter. Um aliado que ganha projeção passa a ser tratado como ameaça. As exigências mudam conforme o personagem: toleram no próprio grupo aquilo que apresentam como imperdoável nos outros. A disputa pelo protagonismo vem embrulhada em preocupação com o país.

O purismo utópico é um dos recursos desse repertório. Exigem concordância integral, soluções imediatas e uma política sem negociação. Uma reforma que avance por etapas pode ser denunciada como fraude. Uma regra de transição vira covardia. O sujeito preserva sua pose porque nunca precisa demonstrar como aprovaria a proposta perfeita que anuncia.

O mesmo vale para o liberalismo de ocasião. Defendem cortar gastos até o corte alcançar um interesse próximo. Falam em liberdade, mas querem enquadrar quem discorda. Pedem renovação, desde que o nome novo peça licença a eles para crescer. A independência tão celebrada termina quando alguém resolve agir sem consultar os donos da franquia.

A experiência europeia serve de alerta para o que acontece quando a identidade política depende demais do adversário. O enfraquecimento da esquerda pode abrir uma disputa entre grupos que antes pareciam caminhar juntos. Quem se acostumou a mobilizar pela rejeição procura outro alvo para manter influência. No Brasil, esses órfãos poderão encontrar dentro da própria direita o inimigo que precisam para continuar em evidência.

Para quem vive de audiência, a briga tem vantagens. Explicar uma reforma exige estudo. Acusar alguém de traição rende likes em uma postagem. Discutir investimento, produtividade e alfabetização dá trabalho. Insinuar que outro político se vendeu produz reação imediata. A indignação se renova, os seguidores se dividem e o autor da confusão volta ao centro da conversa.

Por isso, uma vitória de Flávio poderá incomodar alguns que diziam desejar a derrota do PT. Ela obrigará esses personagens a mostrar o que sabem fazer depois do protesto. Alguns preferirão antecipar a próxima guerra, desqualificar aliados e procurar culpados para dificuldades que ainda nem aconteceram.

Os novos órfãos talvez sejam os últimos a admitir a falta que Lula lhes faz. Viveram tanto tempo à sombra dele que poderão começar a fabricar seu substituto antes mesmo de a festa da vitória terminar. Precisarão inventar outro inimigo antes que o público perceba que nunca tiveram muito mais a oferecer.

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