
Publicado em 09 de Outubro de 2026
Houve um tempo em que o terrorismo eleitoral precisava de combustível, motorista e alto-falante. Carros de som percorriam bairros espalhando o medo de que, se a oposição vencesse, o Bolsa Família acabaria. A mensagem atingia justamente quem mais dependia do benefício. Bastava plantar a dúvida onde a insegurança já fazia parte da vida. Dos sentimentos primários, o medo sempre foi o mais explorado em todas as campanhas. E ele geralmente é plantado por quem sente o cheiro da derrota.
Desde 2006, a ameaça sobre o fim de programas sociais aparece em todas as campanhas presidenciais. Quem depende de um benefício para colocar comida na mesa fica no meio de uma disputa que deveria oferecer proposta, número e garantia dos dois lados.
Agora, o carro de som cabe na palma da mão. O terrorismo eleitoral ganhou velocidade digital. Uma montagem aparece no WhatsApp, vira vídeo no Instagram, circula em grupos de família e alcança milhares de pessoas antes que alguém tenha tempo de conferir a informação. A mentira viaja depressa. O esclarecimento quase sempre chega atrasado.
O alvo da vez é Flávio Bolsonaro. Espalham que ele vai acabar com o SUS, extinguir a CLT, fechar universidades públicas, cortar programas sociais, encerrar a Farmácia Popular e até retirar das mulheres o direito de votar.
São acusações graves, que exigiriam provas igualmente graves. Em um debate honesto, o caminho correto seria apontar o trecho do plano de governo de Flávio que sustentasse cada afirmação. Sem isso, o eleitor recebe uma ameaça no lugar de uma informação. Mas isso não vai acontecer até porque nada disso está no plano de governo apresentado pelo candidato à Justiça Eleitoral.
O antigo carro de som tinha trajeto, horário e responsável. Hoje a frase sai da boca do candidato à reeleição, da sua esposa, dos ministros, do comitê, ganha milhares de versões, milhares de compartilhamentos e segue circulando depois do desmentido. O alcance mudou. O expediente, não.
Saúde, emprego, educação, direitos e programas sociais são assuntos sérios demais para serem usados como instrumento de intimidação. Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de famílias que enfrentam dificuldade real e esperam soluções concretas para problemas diários. Examinar custos, prioridades e consequências faz parte da campanha. Usar a mentira como ameaça, não deveria fazer.
Como seria bom se, em vez de gastar tempo anunciando o fim do que o adversário não propôs extinguir, o PT explicasse o Brasil que está entregando. Que explicasse o crescimento da dívida pública, o endividamento das famílias, os juros que sufocam quem trabalha e produz, e o avanço do crime organizado, que domina territórios, movimenta bilhões e desafia o Estado.
E que respondesse à pergunta que realmente importa: depois de tantos anos no poder, o que o PT ainda tem a oferecer ao Brasil em mais quatro anos de governo? Que explicações apresenta para os problemas que continuam atormentando os brasileiros? Talvez seja justamente a dificuldade de responder a essas perguntas que torne tão conveniente espalhar boatos sobre o adversário. É mais fácil anunciar o fim do que o outro não propôs extinguir do que explicar por que tantos problemas persistem depois de o PT ter governado o país por quase 17 dos últimos 24 anos.
Uma campanha limpa começa quando quem pede mais quatro anos tem coragem de responder pelo que fez nos últimos quatro. Imagine se a ameaça saísse da boca de Flávio Bolsonaro. O desmentido não esperaria o dia seguinte.