
Publicado em 05 de Outubro de 2026
Com as urnas apuradas e findo o primeiro turno das eleições, o senador Flávio Bolsonaro terminou com 47,08% dos votos válidos, contra 45,10% de Luiz Inácio Lula da Silva, a quem as pesquisas davam a liderança. O PL sai das urnas com a maior bancada do Senado e governadores eleitos no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Um presidente no cargo, com a máquina federal nas mãos e a vantagem de 12 pontos que a maioria das pesquisas lhe atribuía em julho, terminou atrás do adversário. Erros de pesquisa podem explicar a surpresa, mas não o voto. O domingo revelou cansaço com um projeto que venceu cinco das últimas seis eleições e ofereceu mais memória do que futuro, com longos ciclos no poder que costumam confundir governo com Estado e transformar crítica em conspiração. Quando uma campanha se gasta pedindo votos contra o adversário em vez de defender a si mesma, a discussão de fundo já se perdeu. O eleitor parece ter concluído que gastar mais, tributar mais e intervir mais deixou de ser resposta para os problemas nacionais.
A história brasileira conhece bem esse tipo de recado. Foi em maio de 1933, na primeira eleição sob voto secreto e Justiça Eleitoral, que a Chapa Única por São Paulo Unido conquistou a bancada paulista na Constituinte. Meses antes, os paulistas haviam sido derrotados nas armas pelo governo Vargas, que controlava o Catete e as interventorias. Ainda assim, o poder central teve de aceitar as urnas. O voto conseguiu o que o fuzil não conseguira e empurrou o país de volta à Constituição, provando que o eleitorado não se submete à chancela do poder quando seu modelo se esgota.
A esperança que o resultado autoriza vem da alternância, mecanismo elementar que obriga quem sai a abrir as gavetas e quem chega a justificar a confiança recebida. Um governo apoiado por um Congresso afinado com reformas terá condições de enfrentar o que ficou parado nos últimos anos, do controle de gastos à simplificação tributária e à segurança nas cidades. O país dispensa salvadores da pátria. Basta-lhe uma gestão que funcione, preste contas e negocie com o Parlamento sem se render a ele. Desperdiçar tal oportunidade custaria caro a uma geração.
O risco está no tamanho da vitória. Metade do eleitorado votou no PT, que também reelegeu governadores na Bahia e no Ceará. Maioria ampla tenta o vencedor a governar só para os seus e a desafiar os freios e contrapesos republicanos. Em 1894, Prudente de Morais tornou-se o primeiro civil eleito presidente após anos de governos militares e uma guerra civil sangrenta no Sul. Floriano Peixoto, o antecessor, nem sequer foi à posse. Prudente de Morais poderia ter perseguido os vencidos, mas preferiu a paz e a anistia. A República, ainda jovem à época, sobreviveu porque o vencedor soube governar também para os derrotados.
O primeiro turno sinalizou o esgotamento do ciclo petista; cabe a Flávio Bolsonaro mostrar, antes de 25 de outubro, que as mudanças servirão ao país inteiro. Cabe a Flávio apresentar, antes do segundo turno, um plano crível ao país e falar ao eleitor. Cabe ao PL tratar sua força no Congresso com responsabilidade, sem se deixar enganar pelas raposas de Brasília. Ao PT impõe-se reconhecer o resultado de 25 de outubro, seja ele qual for. O amanhã pode ser melhor se o vencedor entender que vencer é a parte fácil do processo.