
Publicado em 30 de Setembro de 2026
A eleição está chegando, e as pesquisas apontam que Tarcísio de Freitas pode ser reeleito no primeiro turno. A Quaest mostrou o governador com 44%, acima da soma dos adversários, e Haddad com 24%. Outros institutos também registraram cenários de vitória na primeira rodada. Depois de semanas de ataques e versões pela metade, a estratégia petista parece não ter produzido a virada prometida.
Fernando Haddad escolheu a Sabesp como uma das principais bandeiras da campanha. Afirma que a privatização fez a tarifa subir e promete rever contratos. O discurso foi repetido muitas vezes. A cronologia, nem tanto.
Antes de a privatização ser concluída, em julho de 2024, a conta já acumulava reajustes expressivos. Em 2022, com a Sabesp estatal, a Arsesp autorizou aumento de 12,8%. Em 2023, mais 9,6%. Em 2024, antes da venda, outros 6,4%. O primeiro reajuste oficial depois da privatização entrou em vigor em janeiro de 2026: 6,11%, após cerca de 16 meses sem correção.
A sequência não elimina a obrigação de prestar um bom serviço nem impede críticas ao aumento recente. Ela revela o pedaço retirado do palanque: três dos quatro reajustes ocorreram quando a companhia ainda era controlada pelo Estado. Todos passaram pela Arsesp, a agência estadual que regula as tarifas. Haddad acusa a empresa, mas evita explicar quem autoriza os reajustes.
Há outra informação inconveniente. Como ministro da Fazenda, Haddad participou da regulamentação da reforma tributária. O Senado aprovou redução de 60% da alíquota para água e esgoto. Na volta à Câmara, Reginaldo Lopes, deputado do PT e relator do projeto, retirou o saneamento da lista. A Lei Complementar 214 foi sancionada por Lula e assinada também por Haddad e Geraldo Alckmin. O saneamento ficou fora daquele desconto.
O efeito completo da reforma depende da implantação gradual dos novos tributos. Não cabe atribuir hoje à lei um aumento que ainda não chegou à fatura. Mas cabe perguntar por que o partido que reclama do preço da água retirou o benefício aprovado pelo Senado. Haddad aponta o dedo em São Paulo e esconde a caneta usada em Brasília.
Alckmin aderiu ao roteiro. Subiu no palanque de Haddad e disse que a privatização precisa ser investigada porque houve apenas um interessado. A Equatorial foi a única proponente na disputa pela fatia de 15% destinada ao investidor de referência. Essa fatia não corresponde à oferta inteira, que reuniu milhares de investidores. Se existe suspeita, o ex-governador precisa indicar o fato concreto. Insinuação eleitoral não é prova.
A memória de Alckmin também para onde convém. Foi durante o governo dele que São Paulo enfrentou a crise hídrica de 2014. O Cantareira chegou ao volume morto e a Sabesp estatal intensificou a redução noturna da pressão. A prática agora apresentada como símbolo do período pós-privatização já existia antes da venda. Naquele tempo, Alckmin ocupava o Palácio dos Bandeirantes.
Haddad e Alckmin podem criticar a privatização, questionar tarifas e cobrar qualidade. O eleitor pode cobrar a história completa: os aumentos da fase estatal, o papel da Arsesp, a crise de 2014 e a decisão tributária assinada pelo governo Lula.
Pesquisa não é resultado de urna. Mas os levantamentos mostram Tarcísio com possibilidade concreta de vencer no primeiro turno e sugerem que, até aqui, a tentativa de transformar omissão em argumento não funcionou. Talvez o eleitor tenha percebido que o mais importante não é apenas o que Haddad fala sobre a Sabesp. É tudo o que ele precisa esconder para a versão caber no palanque.