
Publicado em 16 de Outubro de 2026
Brasília tem a propriedade do mercúrio. Você separa as gotas, elas parecem seguir caminhos diferentes, mas basta se encostarem para virar uma coisa só. Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre dão uma boa demonstração disso. O risco de perder o poder aproxima os três com uma facilidade impressionante.
O Congresso que passa meses enrolando o brasileiro descobriu a velocidade. Apareceu disposição para votar benefícios aos MEIs, aprovar o fim da escala 6×1 em dois turnos na mesma noite e acelerar a PEC da Segurança Pública.
Tudo isso na reta final da eleição. Quanta coincidência.
O microempreendedor passou anos apertado por um teto defasado. O trabalhador já estava cansado antes da campanha. A população convive há muito tempo com o medo de sair de casa. Mas foi preciso Lula correr o risco de perder a Presidência para tanta urgência aparecer ao mesmo tempo. Um ministério provavelmente não resolva o problema da segurança pública, mas é uma arma eleitoral nas mãos de Lula.
A verdade é que o sofrimento do brasileiro sempre teve que esperar. A necessidade eleitoral do presidente ganha calendário especial.
Motta e Alcolumbre conhecem cada instrumento que permite acelerar ou enterrar uma proposta. Sabem exigir discussão quando lhes convém e abreviar procedimentos quando há interesse. Nesta reta final, colocaram essa habilidade a serviço de uma agenda que abastece a campanha de Lula. O Planalto pede e as presidências do Congresso providenciam o andamento.
O mercúrio se juntou.
O medo de perder o poder explica muito dessa correria. Uma derrota ameaça cargos, indicações, acesso ao orçamento e influência sobre as decisões do próximo governo. Há muita gente agarrada a essa estrutura, fazendo as contas sobre o próprio futuro. A perspectiva de continuar mandando produz entendimentos que anos de necessidade popular não conseguiram produzir.
Enquanto o pacote eleitoral avança, circulam fake news contra Flávio Bolsonaro. Até vídeos manipulados com inteligência artificial anunciando cortes em aposentadorias e no 13º enchem as redes. Explora-se o medo de quem depende dessa renda. O eleitor precisa gastar tempo descobrindo se aquilo é real, enquanto a mentira já percorreu os grupos de WhatsApp.
E a oposição? Uma parte parece assistir a tudo esperando que alguém faça alguma coisa.
Onde estão os deputados e senadores para expor diariamente o calendário dessa generosidade? Cadê a cobrança sobre os anos de espera? Cadê a explicação sobre custos, consequências e conveniências? Dá para defender uma medida e denunciar seu aproveitamento eleitoral. Para isso, é preciso enfrentar o debate e falar de um jeito que chegue à população.
Quem já garantiu o próprio mandato deveria ter vergonha de acompanhar tudo da arquibancada. Muitos foram eleitos com os votos de quem agora espera atuação. Receberam estrutura, visibilidade e confiança. Têm obrigação de usar o mandato para fiscalizar essa corrida de entregas e cobrar explicações.
O governo ocupa cada espaço disponível. A oposição deixa espaços vazios e depois reclama da narrativa.
Mesmo assim, Flávio segue numericamente à frente nas pesquisas. O favoritismo existe; eleição ganha, ainda não.
Há uma disputa aberta, uma máquina mobilizada e um presidente usando cada entrega como argumento para permanecer.
O sistema já mostrou o quanto teme perder o poder. Falta uma parte da oposição — exatamente a que tem ferramentas para enfrentar manobras — mostrar que está disposta a tirá-lo de lá.