
Publicado em 22 de Outubro de 2026
Houve um tempo em que o crime organizado alimentava uma imagem de proteção nas comunidades. O traficante ajudava famílias, pagava remédios, resolvia brigas e impunha regras apresentadas como forma de amparo aos moradores. Era uma maneira de conquistar silêncio, lealdade e território. A violência sempre esteve presente, mas vinha acompanhada de propaganda social. Certa literatura e novelas em horário nobre ajudaram a romantizar essa figura do bandido benfeitor.
Essa encenação acabou. Hoje, as facções cobram para o morador continuar na própria casa, controlam serviços, expulsam famílias e ameaçam quem desobedece. A população virou fonte de receita. O criminoso cobra pela segurança contra a violência que ele mesmo representa.
Mudaram a dimensão do negócio e a disposição de exercer o poder sem constrangimento. As facções não se contentam mais com a venda de drogas. Querem decidir quem trabalha, constrói, circula e até quem recebe água.
No Rio de Janeiro, uma obra de esgoto parou depois que um traficante exigiu R$ 20 mil da construtora para permitir os trabalhos. A empresa retirou máquinas e funcionários. Chamaram de taxa de segurança. Segurança de quem? Dos trabalhadores ameaçados pelo próprio cobrador.
Em São Paulo, o furto de hidrômetros expõe outra face dessa economia criminosa. Foram 23.724 no primeiro semestre de 2026, segundo a Sabesp. O metal furtado vai parar no mercado ilegal de sucata. O Ministério Público denunciou uma rede de ferros-velhos ligada ao PCC que recebia materiais roubados e pagava com drogas. Uma estrutura que transforma furtos em dinheiro.
As facções brasileiras já ultrapassaram as fronteiras do país. O PCC controla rotas internacionais do tráfico, utiliza intermediários no exterior e movimenta recursos bilionários. O Comando Vermelho também ampliou suas conexões.
Em maio, o governo Trump classificou as duas facções como organizações terroristas. O governo brasileiro reagiu falando em ameaça à soberania. Mas que soberania existe onde criminosos decidem quem pode trabalhar, construir ou receber água?
E o avanço não se limita ao domínio territorial. Em 2024, uma investigação da Polícia Civil paulista revelou um esquema que teria movimentado R$ 8 bilhões por meio de uma fintech e empresas ligadas ao PCC. Segundo os investigadores, a estrutura servia para lavar dinheiro e financiar candidaturas. O crime que antes precisava comprar o silêncio dos moradores agora também procura comprar influência dentro das instituições.
Quem controla território, empresas e dinheiro quer influência sobre contratos, fiscalização, nomeações e decisões políticas. Comprar proteção nas instituições pode ser mais fácil do que enfrentar a polícia nas ruas.
A infiltração no Estado é uma etapa grave dessa trajetória. O crime já não depende apenas de homens armados na esquina. Procura operadores financeiros, empresários, servidores e políticos capazes de abrir portas que as armas não conseguem.
A imagem do bandido que protege os pobres nunca resistiu a um exame sério. Hoje, nem a aparência é necessária. Quem impede uma obra de esgoto, cobra pela água e transforma a miséria em negócio explora justamente quem tem menos condições de escapar.
As facções enriqueceram, atravessaram fronteiras e descobriram o valor de ocupar espaços no poder público. E talvez este seja o sinal mais preocupante: o crime organizado já não precisa conquistar a confiança das comunidades mais pobres. Basta conseguir que o Estado continue incapaz, ou não queira enfrentá-lo.