
Publicado em 28 de Abril de 2026
O 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores entrará para a história pela dissonância cognitiva que expôs. Centenas de páginas de resoluções — do Programa Partidário à Conjuntura e Tática Política e Eleitoral — repetem o diagnóstico de sempre: “crise terminal do neoliberalismo”, “declínio da hegemonia norte-americana”, necessidade de derrotar o “bloco rentista-autoritário” e construir o “Bem Viver”. Texto perfeito para agradar a militância nostálgica dos anos 2000. O problema é o abismo entre o PDF e a realidade brasileira de 2026.
Os documentos dedicam seções inteiras à “financeirização da economia”, desindustrialização e ao “bloco rentista”. O diagnóstico do problema é até correto; o Brasil convive com spreads bancários entre os mais altos do mundo, custo de capital proibitivo e baixa poupança interna.
Porém, o Congresso não apresentou uma única medida disruptiva contra isso. Nenhuma proposta concreta de reforma profunda no sistema financeiro — apenas retórica genérica. Muito menos foram capazes de reconhecer que o governo petista opera confortavelmente dentro das regras do jogo: arcabouço fiscal, meta de inflação, convivência pacífica com o Banco Central autônomo. Radicais no discurso contra o rentismo, pragmático (e dependente) dele na prática.
O silêncio sobre os próprios escândalos foi ensurdecedor. A resolução de tática política foca obsessivamente na “comunicação para vencer o bolsonarismo” e na reeleição de Lula. Compreende-se o motivo. O Caso Master tem raízes profundas no reduto petista baiano: o Credcesta, privatizado na gestão Rui Costa, transformou-se em máquina de crédito consignado com juros elevados, exclusividade para o ex-sócio de Daniel Vorcaro e amigo de Jaques Wagner, com grandes lucros às custas de servidores públicos endividados. É sintoma de uma cultura recorrente de aparelhamento estatal – captura regulatória e promiscuidade político-empresarial que o PT jamais conseguiu (ou quis) superar de verdade.
O PT sai do congresso com estratégia cristalina: polarização permanente com a direita bolsonarista, narrativa de “reconstrução democrática” e mobilização de bases identitárias e setoriais. Funciona para a militância, mas passa longe de resolver os problemas estruturais crônicos do Brasil: produtividade estagnada, educação de baixa qualidade, segurança pública em colapso e dependência excessiva de commodities. Problemas que se acentuaram com o PT no governo. O “novo caminho antineoliberal” permanece mais declaratório do que nas ações. O eleitor de 2026 não decidirá apenas pelo bolso ou pela memória dos governos passados. Ele percebe a lacuna crescente entre o que o PT promete nos documentos e o que entrega no dia a dia, além, claro, da dificuldade em reconhecer erros.
Após 17 dos últimos 23 anos no poder, o partido já não pode se apresentar como eterna vítima do sistema ou como força transformadora que nunca chegou a ser.
O PT continua refém de sua própria esquizofrenia estratégica — radical na retórica anticapitalista, acomodado na prática do poder, seletivo na defesa da democracia e silencioso diante dos próprios escândalos. O PT segue cada vez menos convincente para o Brasil real.