
Publicado em 20 de Maio de 2026
Enquanto Flávio Bolsonaro subia ao palco e era recebido com aplausos entusiasmados, o vice-presidente Geraldo Alckmin entrava no mesmo evento sob vaias sonoras. A cena desta terça-feira (19), na Marcha dos Prefeitos, em Brasília, foi o retrato fiel do momento político brasileiro: de um lado, a expectativa de mudança; do outro, o cansaço acumulado com o atual governo.
Flávio não foi a Brasília para fazer um discurso protocolar. Foi para se posicionar como herdeiro do municipalismo bolsonarista e já mirar 2027. Com tom firme e direto, repetiu a fórmula que marcou o governo anterior: “menos Brasília e mais Brasil”. Lembrou que, mesmo na pandemia, não houve distinção partidária na hora de repassar recursos aos municípios. Cutucou o governo presente ao afirmar que prefeitos não podem ser punidos politicamente por receberem votos contrários a ele pelos eleitores — um recado claro ao modelo atual de liberação de verbas, condicionado ao alinhamento político.
O senador foi além da crítica. Propôs um caminho: anistia ampla aos presos do 8 de Janeiro como primeiro passo para a pacificação institucional. Defendeu o fim do uso do aparato estatal para perseguir adversários e prometeu um governo que olhe para a frente, gerando prosperidade, especialmente nos estados com alto desemprego. Na economia, foi duro: atacou a carga tributária elevada, a farra de gastos que aumenta os juros e o endividamento que sufoca famílias e prefeituras. Defendeu um ajuste fiscal real, segurança jurídica e o enxugamento da máquina pública.
Na segurança pública, o discurso endureceu. Flávio cobrou o enfrentamento direto às facções criminosas, investimento em tecnologia, integração de dados e o fortalecimento das guardas municipais — inclusive com armamento para agentes devidamente treinados. Defendeu um Ministério da Segurança Pública com orçamento à altura e prometeu apoio concreto aos municípios. Ainda fez um movimento estratégico ao dizer que o Nordeste não é um problema, mas a solução, abrindo diálogo com prefeitos da região.
Flávio equilibrou bem o discurso técnico e o político. Falou em modernização digital do Estado, uso de inteligência artificial para reduzir filas no SUS, simplificação de alvarás e licenças, atualização da tabela do SUS e flexibilização da jornada de trabalho — criticando a rigidez da escala 6×1 que tira a autonomia do trabalhador. Reafirmou o compromisso de barrar, no Congresso, qualquer medida que crie despesa nova para os municípios sem indicar a fonte de custeio. E elogiou o estilo Bolsonaro: portas abertas nos ministérios e respeito aos prefeitos, independentemente de partido.
No fim, apresentou-se como alguém preparado para conectar a realidade dura das prefeituras com o debate nacional. Misturou a defesa da eficiência administrativa com a crítica ideológica ao modelo atual, sem perder o fio condutor: o município é a ponta da linha e merece ser tratado como prioridade. O contraste com as vaias a Alckmin não poderia ser mais simbólico. Enquanto um lado aplaudia propostas concretas de alívio tributário, desburocratização e respeito, o outro colhia o resultado de anos de promessas, repasses insuficientes e sobrecarga. Entre os aplausos que projetam o futuro e as vaias que refletem o presente, o Brasil da ponta parece já ter escolhido um caminho