No Brasil do Lula, a culpa é sempre sua

Publicado em 25 de Abril de 2026

Num belo dia, o presidente da República foi a público dizer que o brasileiro tem “televisão demais”. Parece o começo de uma piada de bar, mas foi Lula, num evento da Fundação Perseu Abramo, decretando que a classe média nacional “ostenta um padrão de vida acima do necessário” e que, no fim das contas, “uma televisão já tá boa”. Essa frase é a pedra de toque do terceiro mandato.

O lulismo dos anos 2000 vendia geladeira, carro popular e crédito fácil como prova viva da inclusão social. O pobre consumindo era a civilização se corrigindo, era o motor retórico do projeto do PT. Agora, com o país em frangalhos e uma economia que teima em não obedecer decreto, o mesmo partido decidiu que consumir demais é falta de caráter. A “nova classe média” virou, da noite para o dia, massa de ostentadores sem limite, aprendendo tarde demais “o que é necessário para sobreviver”.

Essa inversão não é exclusividade do Lula, mas o coro de um governo inteiro. Haddad disse que a economia não anda bem porque o sujeito gasta nas “bets“, como se o spread bancário mais brutal do planeta e os juros confiscatórios andassem ao lado do vício do Zé da esquina. Simone Tebet anunciou cortes “eliminando fraudes” no Bolsa Família, dando a entender que o rombo fiscal vem do deficiente e do idoso que, veja o absurdo, andavam enganando a República. Alckmin defendeu a taxa das blusinhas como “proteção à indústria nacional” ou, em bom português, uma autorização para que a lojista não baixe o preço e a doméstica arque com a diferença. E o próprio presidente, diante da inflação na cesta básica, disse que se a comida “tá cara, não compra”.

Essa é a política econômica do PT reduzida à terapia comportamental. O brasileiro que não aguenta o preço do arroz que medite sobre seus impulsos, o endividado que faça “educação financeira”. Quem compra algo do exterior que pense na situação da Magalu, quem recebe Bolsa Família que prove, todo mês, que não é um picareta. Enquanto isso, a máquina pública segue gastando como se dinheiro desse em árvore.

O Estado, que deveria ser o primeiro no banco dos réus da inflação, vira o juiz dos costumes alheios. O cidadão que em 2006 era o herói que “chegou à classe C”, em 2026 é o vilão atrapalhando os gráficos do Planalto. A pessoa de carne e osso, com filho, prestação e desejo de vida digna, é agora moralmente suspeita, um consumidor a ser catequizado pela burocracia.

E todos sabem, inclusive a esquerda, que esse discurso não cola. O brasileiro que trabalha dez horas por dia e compra uma blusinha pelo celular não está ostentando, está sobrevivendo dentro da única vida que a economia lhe permite. A moradora da periferia com televisão de cinquenta polegadas não está afrontando o planeta, ela só está tentando dizer, à sua maneira, que também existe. É precisamente essa existência concreta, do churrasco de domingo parcelado, que a equipe econômica do “viver com menos” se recusa a enxergar como digna.

Daí a rejeição à taxa das blusinhas bate em 62% e a de Lula segue pelo mesmo caminho a cada dia. O eleitor percebe, mesmo sem ter acesso a qualquer relatório do Tesouro, que o problema não é a televisão dele, é a conta que não fecha lá em cima. E sabe que, em ano eleitoral, o roteiro virou contra ele. Agora, se o país vai mal, a culpa é da Dona Maria aí, que gastou, apostou, comeu demais e não lembrou que Brasília também precisa de dinheiro. Eles até podem acreditar nisso, mas quem tem o poder de dar a última palavra ainda é o povo.

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