Muito ajuda quem não atrapalha

Publicado em 14 de Outubro de 2026

Existe um ditado que deveria orientar quem pretende participar de uma campanha eleitoral: muito ajuda quem não atrapalha. Numa disputa tão difícil quanto a de 2026, cada declaração, iniciativa e imagem pode influenciar o resultado. Boa intenção, sozinha, não substitui bom senso.

Desde a indicação de Flávio Bolsonaro, vimos gente que se apresenta como antipetista dedicando mais energia a questionar sua candidatura do que a enfrentar Lula. Surgiram especulações na imprensa sobre alternativas e articulações que pareciam existir mais nas manchetes do que nas ruas.

Nas redes sociais, os liberais insistiram em promover outros nomes, mesmo quando os sinais de viabilidade eleitoral eram frágeis. Romeu Zema, por exemplo, terminou o primeiro turno com apenas 0,27% dos votos. O resultado expôs a distância entre preferência pessoal e realidade eleitoral.

Cada cidadão tem o direito de defender o candidato que quiser. O problema começa quando quem se diz comprometido com um objetivo comum ignora as consequências de seus movimentos. Campanha exige leitura de cenário e senso de oportunidade.

O que aconteceu na Avenida Paulista, no domingo, oferece outro exemplo. Após a manifestação pró-Lula, houve registros de pichações, danos e vandalismo durante a dispersão. As imagens mostraram danos ao patrimônio público que exigem apuração e responsabilização.

Em seguida, um grupo decidiu ajudar a limpar as pichações. O gesto é correto e merece respeito. Quem cuida da cidade não deve ser tratado como culpado pela depredação cometida por outros. Ainda assim, existe um efeito que não pode ser ignorado: com as marcas removidas, muita gente que passar pela Paulista não verá pessoalmente o estrago deixado após o ato.

Não seria razoável exigir que a cidade permanecesse suja para servir de prova política. Mas seria igualmente ingênuo fingir que a velocidade com que uma imagem desaparece não interfere na forma como os acontecimentos são percebidos. Registrar os danos e cobrar providências também é responsabilidade pública.

O episódio não merece uma caça às bruxas. Merece reflexão. A campanha já enfrenta desafios suficientes sem iniciativas cujos efeitos sejam pouco avaliados. Às vezes, o impulso de fazer algo imediatamente impede uma pergunta simples: qual será o efeito disso amanhã?

O PT conhece campanhas, domina a disputa de narrativas e sabe transformar erros alheios em vantagem. Seus adversários deveriam conhecer essas regras com a mesma atenção. Divergências continuam legítimas. Significa reconhecer que, numa reta final apertada, protagonismo individual e estratégia coletiva nem sempre caminham juntos.

Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, mas eleição não se vence por antecipação. O adversário tem estrutura, experiência e capacidade de ocupar ruas e redes. Quem deseja contribuir precisa escolher bem suas batalhas, medir suas palavras e pensar além do aplauso imediato.

Antes de uma polêmica ou iniciativa vistosa, convém perguntar: isso ajuda a esclarecer os fatos e fortalecer a campanha? Ou serve apenas à vontade de aparecer?

Ninguém precisa deixar de agir. Precisa apenas entender que o resultado de uma atitude importa tanto quanto a intenção de quem a tomou. Em política, erros bem-intencionados também têm custo. E, quando a margem é estreita, esse custo pode ser alto.

Muito ajuda quem não atrapalha. Faltando tão pouco para a decisão, já seria uma contribuição e tanto.

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