
Publicado em 28 de Outubro de 2026
Existe uma regra bem simples na política: a disputa dura até a apuração dos votos; depois disso, a briga acaba e o trabalho de verdade precisa ser feito. Quem vence não tem o direito de passar os quatro anos seguintes comemorando ou caçando adversários pelo retrovisor. O papel básico de um presidente é esfriar os ânimos e governar para todos, inclusive para quem votou contra. Mas Lula, no discurso da vitória, parece que preferiu continuar gritando para a militância em vez de se comportar como chefe de Estado.
Esse clima de guerra permanente não pode seguir. O cidadão comum tem problemas reais diários e precisa de respostas. Não dá para consertar o país jogando apenas para a própria torcida. Também não pega bem essa ideia de querer driblar a imprensa e falar só por vídeo gravado no celular. Fazer lives para fugir de repórteres não resolve nada. Cobrar quem está no poder não é perseguição política: é o trabalho do jornalismo e a garantia de que ninguém manda sozinho. Governante que foge de perguntas e quer falar sozinho não demonstra liderança, revela medo de prestar contas.
A conta dessa teimosia em manter o palanque armado não demorou nem vinte e quatro horas para chegar. O pregão mostrou na prática o que acontece quando a política ignora o bom senso: o mercado financeiro abriu a semana em pânico generalizado com a falta de sinais sobre o controle de gastos. A Bolsa desabou, o dólar disparou e os juros futuros explodiram diante da desconfiança total com os rumos da economia. O chamado “risco Brasil” não é um número abstrato inventado por analistas; ele reflete o medo real de que o governo gaste sem freio, perca o controle da dívida pública e jogue o país em nova onda de carestia. Quando o risco sobe e a moeda derrete, não é a Faria Lima que passa aperto: são as famílias comuns que vêem a comida, o transporte e o crédito ficarem mais caros da noite para o dia.
Enquanto o presidente insiste em dividir os brasileiros no “nós contra eles” e fala em “soldados de um exército”, a realidade bate na porta sem pedir licença. O Brasil real não vive de aplauso em comício. As contas públicas estão no vermelho, a dívida do país só cresce e o custo de vida corrói o salário logo na primeira semana do mês. No mercado, o dinheiro rende cada vez menos. Nos postos de saúde, as filas não diminuem. E, nas ruas, o crime organizado e as facções mandam e desmandam, impondo toques de recolher e deixando o trabalhador refém do medo.
Nada disso se resolve no grito, na base da provocação ou com discursos cheios de ira. Se o governo quer mesmo evitar que a situação piore, vai ter que parar de birra, sentar com o Congresso e construir acordos de verdade para aprovar reformas que destravem a economia. Manter o palanque armado só serve para fingir que os problemas não existem e para ignorar dezenas de milhões de brasileiros que não votaram nele, mas que acordam cedo, pegam ônibus lotado, pagam impostos caríssimos e merecem respeito.
A eleição acabou. O que sobrou agora são contas para pagar, ruas cada vez mais perigosas e um país rachado que precisa de paz. Descer do palanque é a obrigação mais óbvia de quem fez de tudo para seguir sentado na cadeira de presidente.