Finalmente alguém lembrou de quem paga a conta

Publicado em 24 de Setembro de 2026

A discussão sobre a concessão de energia em São Paulo gira há meses em torno de uma pergunta conveniente e polarizada: a Enel fica ou sai? O processo de caducidade avançou depois do apagão de dezembro de 2025 após um vendaval extremo. Agora, porém, a área técnica do Tribunal de Contas da União deslocou o centro da conversa. Antes de qualquer decisão definitiva, o TCU quer saber quanto custará a mudança, como será feita a transição, quem assumirá a operação e qual será o impacto real sobre a tarifa.

Por trás do discurso político existe uma concessão bilionária, empresas interessadas e decisões do governo capazes de definir quem explora um dos maiores mercados de distribuição de energia do país. Uma estimativa da Envol Consultoria, divulgada pela CNN, calculou que uma eventual troca de controle da Enel São Paulo poderia chegar a R$ 25 bilhões. E já existe interessado: a CPFL declarou publicamente interesse no ativo. A empresa é controlada pela State Grid, estatal chinesa que vem ampliando seus investimentos no Brasil.

A relação com o governo merece atenção. Em abril de 2025, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, visitou as instalações da State Grid na China. No ano anterior, representantes da companhia haviam se reunido com ele em Brasília. Depois disso, a CPFL teve concessões renovadas. A Enel São Paulo ficou de fora. O processo de caducidade avançou, a ANEEL rejeitou um pedido de perícia independente. Silveira passou a falar publicamente em troca de controle. E a CPFL confirmou o interesse. São fatos públicos que colocam interesses políticos e econômicos no centro da discussão.

Estamos falando de quem poderá controlar uma concessão gigantesca e das condições em que essa transferência poderá acontecer. A Aneel já mencionou custos de R$ 15 bilhões em indenização. Uma operação dessa dimensão não pode ser apresentada ao público como uma simples substituição de empresa.

Goiás mostra por quê. A concessionária foi vendida para a Equatorial em 2022. Na transferência, houve condições regulatórias específicas: documento do TCU registra que, durante três anos, determinadas hipóteses relacionadas a indicadores de continuidade e eficiência econômico-financeira não poderiam resultar na abertura de processo de caducidade. Em 2025, os consumidores receberam reajuste tarifário de 19,36%. A experiência de Goiás deveria estar no centro da discussão paulista. A empresa mudou, novas condições regulatórias foram estabelecidas e, poucos anos depois, o consumidor viu um reajuste próximo de 20%.

Agora São Paulo está diante de uma discussão que pode movimentar R$ 25 bilhões. Enquanto o debate público se concentra em quem deve sair, existe uma disputa econômica muito maior ao redor da concessão: quem poderá entrar, quanto valerá o ativo e quais condições acompanharão essa mudança. É aí que a recomendação técnica do TCU se torna incômoda. Ela obriga o governo a sair do discurso político e colocar números na mesa.

Cobrar a Enel por suas falhas é obrigação. Mas o consumidor não pode servir de argumento para justificar uma operação bilionária e depois aparecer apenas na hora de pagar a conta.

Existe dinheiro demais, interesse empresarial demais e poder político demais envolvidos para aceitar decisões sem transparência absoluta. A discussão nunca deveria ter sido apenas sobre quem sai. Agora o TCU faz a pergunta que deveria estar no centro do debate desde o início: o que o consumidor ganha com isso?

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