Clandestinidade sem concorrência

Publicado em 07 de Outubro de 2026

O futebol volta amanhã, na primeira rodada após o bloqueio das bets. Para onde vai quem ainda quer apostar?  

Anunciada a nove dias do primeiro turno, a proibição tem cheiro de cálculo eleitoral.

O mesmo governo que regulamentou o setor e passou a arrecadar com ele decidiu fechá-lo na reta final da campanha. O vício e o endividamento das famílias já existiam. A urgência apareceu na campanha.  Passado o primeiro turno, já é hora de cobrar um resultado concreto. O que mudou para quem perde o salário no jogo? 

Tirar do ar uma empresa identificada, com endereço e responsáveis conhecidos, é muito mais simples do que enfrentar quem vive escondido e troca de domínio para continuar operando. O próprio governo anunciou ações contra 5,2 mil sites e 2 mil perfis envolvidos na publicidade de apostas ilegais. O mercado clandestino já estava ali. A pergunta é o que acontecerá com ele depois do fechamento das casas que obedeciam às exigências do Estado. Quem nunca respeitou regra alguma recebeu um concorrente a menos.  

As empresas anteriormente autorizadas tinham CNPJ conhecido, obrigações tributárias, canais de atendimento e regras para pagar os prêmios. Podiam ser fiscalizadas, cobradas e responsabilizadas. Isso não eliminava o risco do jogo nem os danos da dependência. Mas permitia saber quem recebia o dinheiro e a quem dirigir uma reclamação. 

E na clandestinidade? Quem está do outro lado da tela? Quem controla o jogo? Quem fica com o depósito? Se o saque é recusado ou o saldo desaparece, o apostador procura quem? Como se cobra uma empresa que não consegue identificar? São sites cuja URL parece uma sopa de letrinhas cheia de consoantes. O usuário mal consegue guardar o endereço. Enquanto isso, a tela despeja estímulos: bônus de boas-vindas, convide um amigo e ganhe, cashback, oferta por tempo limitado. A atenção fica presa na promessa. A identidade de quem recebe o dinheiro passa despercebida. Um rosto conhecido nas redes pode completar a armadilha. O influenciador exibe ganhos, oferece um link e apresenta aquela plataforma como uma oportunidade. Quem acompanha confia na pessoa. Quando aparece um problema, a propaganda pode ter sido apagada e o divulgador pode já estar até oferecendo outro endereço. 

E o sistema financeiro? Não enxerga essas operações? Quem recebe os depósitos? Quem processa os pagamentos? Que controles são aplicados para identificar os beneficiários e interromper transações ligadas a sites ilegais? Bancos e instituições de pagamento precisam explicar como enfrentam esse circuito. A fiscalização precisa alcançar o caminho inteiro: o operador, o anunciante, o divulgador e quem viabiliza a movimentação financeira. Pouco adianta bloquear um endereço se outro assume seu lugar e continua recebendo depósitos. As consequências das apostas exigem uma resposta séria. 

Tratamento para a dependência, proteção às famílias, combate à publicidade abusiva e repressão ao mercado clandestino precisam produzir resultados que possam ser medidos. Um anúncio de palanque não resolve o problema. Se a vontade de apostar permanece e a oferta ilegal continua ao alcance do celular, o cidadão pode acabar mais exposto. Quem perdeu o dinheiro procura ajuda. Quem recebeu pode continuar escondido atrás de outro endereço. A quem interessa empurrar o apostador para as mãos de quem nunca cumpriu a lei? 

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