
Publicado em 26 de Abril de 2026
por: Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino
Nos últimos dias, teve grande repercussão a venda da mineradora Serra Verde para a empresa americana USA Rare Earth, um negócio de US$ 2,8 bilhões que contou com o apoio direto do governo dos EUA e vincula a única produtora de terras raras em operação no País à agenda estratégica de Washington para tornar-se menos dependente da China no fornecimento de tais insumos.
As terras raras são um conjunto de 17 elementos de importância vital para indústrias de alta tecnologia e, apesar do nome, não são tão raras, mas o setor é dominado pela China, tanto em reservas como nas tecnologias de beneficiamento e industrialização. O Brasil vem em segundo lugar em reservas, mas a maior parte ainda está inexplorada, e é deficiente nas tecnologias de agregação de valor.
Registrada em 2012, a Serra Verde opera uma mina de óxidos de terras raras (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio) em Minaçu (GO), tendo iniciado a produção comercial em 2024. Sua capacidade atual é de cerca de 5 mil toneladas anuais, com projeções de expansão para 6,5 mil toneladas até 2027, assegurada por um financiamento de US$ 565 milhões recentemente concedido pela U.S. International Development Finance Corporation (DFC), agência estatal orientada para projetos estratégicos dos EUA no exterior. Outro financiamento de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio facilitou a aquisição da empresa pela USA Rare Earth.
Como incentivo, a nova controladora recebeu do governo de Donald Trump uma garantia de compra (offtake) de 15 anos de sua produção integral, além de preços mínimos para os minerais produzidos, reduzindo o risco de um eventual colapso de preços motivado pela concorrência chinesa.
Diante do domínio chinês sobre 80-90% do processamento global de terras raras, a estratégia parece ser a criação de uma cadeia verticalizada mine-to-magnet (“da mina ao ímã”) fora da órbita de Pequim, vinculando a mineração no Brasil, separação, processamento metalúrgico e industrialização nos EUA, França e Reino Unido, países onde a empresa tem operações, visando ao fornecimento para a indústria de defesa, eletrônicos, sistemas aeroespaciais, veículos elétricos e outras aplicações.
No esquema, o Brasil entra apenas como fonte das matérias-primas, reforçando uma persistente dificuldade nacional de agregar valor às suas riquezas naturais, particularmente acentuada no período “globalista” pós-1990.
Porém, a despeito do alarde causado pela operação, a empresa de Goiás já era de controle externo – no caso, os fundos de private equity americanos Denham Capital e EMG e o britânico Vision Blue. Houve apenas uma troca de controladores estrangeiros.
Não obstante, o episódio ressalta de forma contundente o despreparo do Brasil para impor interesses nacionais no mundo turbulento do pós-globalismo e em meio às agendas estratégicas das grandes potências, que colocam o pragmatismo adiante de concepções ideológicas superadas pela realidade, que ainda ofuscam as lideranças brasileiras de todos os setores, como a crença na primazia absoluta das forças “do mercado” na condução da economia em geral.
Nesse caso, como em muitos outros, os EUA demonstram cabalmente como instituições do Estado podem – e devem – catalisar eficientes sinergias público-privadas em favor dos interesses estratégicos nacionais.
Por aqui, a dificuldade começa pela definição de uma pauta estratégica, quando muitos ainda repetem vetustos mantras como “a melhor política industrial é não ter política industrial” e obstinam-se em ignorar que nenhum país do setor avançado abriu mão do papel do Estado na definição e implementação de uma agenda de desenvolvimento de longo prazo, otimizando, inclusive, a vitalidade da iniciativa privada no interesse do Bem Comum.
Na mineração, o problema se agrava pelo fato de o setor ser dominado por empresas estrangeiras, devido a uma combinação de motivos que começa pelo apetite reduzido do empresariado nacional por uma atividade que requer investimentos de longo prazo e lenta maturação. No caso das terras raras, dos cerca de 30 projetos em andamento no País, a grande maioria é de empresas do exterior: Austrália, EUA, Canadá, França, Reino Unido e Chile.
Em outro exemplo, a estatal chinesa CNMC acaba de comprar a Mineração Taboca, que explora estanho, nióbio e tântalo no Amazonas, minérios críticos para várias indústrias avançadas.
Em uma tentativa de correr atrás do prejuízo, o governo tratou de acelerar a formulação de uma política para o segmento de minerais críticos e estratégicos, em discussão desde 2023 e objeto de três projetos de lei apresentados à Câmara dos Deputados. Uma das propostas em debate, a criação de uma empresa estatal específica – uma “Terrabras” – já foi descartada pelo governo, não sendo de fato imprescindível para assegurar que os interesses externos sejam alinhados aos nacionais. Porém, é crucial que o arcabouço final da iniciativa seja balizado pela meta de domínio de toda a cadeia produtiva, em um empenho orientado para o máximo de agregação de valor em um setor com potencial para ser um dos indutores da vital reindustrialização do País.
O Brasil dispõe de um conjunto adequado de instituições aptas a integrar uma estratégia nacional de pesquisa e desenvolvimento para as terras raras, desde a pesquisa geológica e a extração mineral até a separação química, metalurgia, fabricação de ligas, ímãs permanentes e aplicações industriais. A limitação não está na ausência de capacidade científico-tecnológica, mas na fragmentação, descontinuidade e coordenação reduzida entre a pesquisa e as aplicações industriais, algo que requer uma sólida e inovadora política industrial que evite equívocos passados.
Para dar certo, uma estratégia nacional exige a integração efetiva entre as empresas mineradoras, instituições de pesquisa, indústria metalúrgica, de defesa e motores e equipamentos elétricos, além do apoio financeiro de entidades como o BNDES e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Entre as instituições qualificadas para tal esforço, podem-se citar: Centro de Tecnologia Mineral (CETEM); Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT); Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN); Universidade de São Paulo (USP); Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM); SENAI Instituto de Inovação em Mineralogia; Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII).
O ponto crítico está nos elos intermediários e finais da cadeia produtiva, hoje dominados pela China: separação química de alta pureza, metalurgia, produção de metais e ligas, fabricação de magnetos e integração com cadeias industriais (motores, defesa, eletrônica, turbinas etc.).
O desafio é gigantesco, sobretudo com os problemas impostos pela coincidência das turbulências político-econômicas globais e um ano eleitoral com o País fragmentado, tribalizado e polarizado. Mas a maneira de enfrentá-lo poderá ser decisiva para saber se os brasileiros se colocarão à altura da Liga dos Campeões do certame global ou se seguirão pretendendo disputá-la com uma equipe sub-20.