
Publicado em 21 de Outubro de 2026
Durante a campanha eleitoral, o campo petista espalhou mentiras sobre o fim do Bolsa Família, da Farmácia Popular, da CLT e até do SUS. O medo foi a principal ferramenta eleitoral. E quando parece que a mentira é o limite, surge algo com um requinte de crueldade ainda maior.
No dia 18 de outubro, o youtuber Felca publicou: “Eu me escondi por tempo demais”. Anunciou um vídeo para a madrugada do dia 20. Isso bastou para que parte da militância de esquerda decretasse que viria uma denúncia contra Flávio Bolsonaro, capaz de ajudar Lula no segundo turno. Influenciadores e celebridades comemoraram antes de saber do que se tratava.
O vídeo foi sobre outra coisa: “Fobia Social”. Felca falou do bullying que enfrenta desde os 12 anos, do diagnóstico de fobia social, dos períodos em que recorria ao álcool para conseguir sair de casa e do isolamento depois da repercussão de seu trabalho sobre a adultização de crianças. Ele escolheu falar de si, não de candidatos.
A reação do petismo foi, mais uma vez, reveladora. A suposta bomba eleitoral não veio e a expectativa se transformou em ataques irados. Nas redes sociais, insultos, acusações de narcisismo e tentativas de desqualificar o relato. Felipe Neto – aquele mesmo que mandava as pessoas ficarem em casa durante a pandemia enquanto jogava futebol – criticou a publicação e disparou suas ofensas. Houve ainda comentários que chegavam a sugerir suicídio.
Felca não prometeu apoio a candidatos nem denúncia eleitoral. A militância inventou uma história, acreditou nela e resolveu cobrar do personagem real o roteiro que havia escrito sozinha.
Essa disposição para desumanizar o outro não nasceu nesta eleição. Na década passada, manifestações foram marcadas pela infiltração de black blocs e por episódios de depredação que transformaram protestos em cenas de violência. Mais recentemente, a Avenida Paulista voltou a registrar vandalismo após um ato de apoio a Lula.
Nas ruas, a intolerância pode aparecer na destruição do patrimônio. Na internet, no linchamento virtual.
O mais perturbador no episódio de Felca é a contradição. Não que surpreenda. Quem vive discursando sobre acolhimento e cuidado com saúde mental não conseguiu respeitar um depoimento sobre fobia social. Quem condena o bullying incentivou ou tolerou a humilhação de quem falava sobre isso. A empatia durou até o momento em que Felca deixou de ser útil. A dor de uma pessoa foi tratada como uma oportunidade desperdiçada de propaganda eleitoral, sem o menor constrangimento.
Há uma cultura de instrumentalização no petismo. Artistas precisam servir à campanha. Influenciadores precisam mobilizar seguidores. Jornalistas precisam confirmar expectativas. Até uma confissão íntima passa a ser avaliada pelo benefício que pode trazer a um candidato.
Não são todos os eleitores de Lula. É a militância que posa de humanitária enquanto trata pessoas como peças descartáveis.
Felca falou da própria dor. Não pediu voto, não atacou ninguém e não deu explicações a quem esperava uma denúncia política.
No fim, o vídeo revelou mais do que seus autores imaginavam. Felca expôs a fobia social que diz sofrer. Parte da militância petista expôs algo que deveria causar vergonha: a facilidade com que abandona qualquer princípio de humanidade quando não consegue tirar proveito político de alguém.