
Publicado em 02 de Maio de 2026
Um muito mal falado jurista do século passado, o senhor Carl Schmitt, ousou durante o conturbado período entre guerras apontar para um dos fundamentos da soberania política: “o soberano é quem decide sobre o caso de exceção”. A soberania é justamente um poder decisório, o poder de decidir sem lei ou até acima da lei sobre casos extremos ou excepcionais. Neste sentido, é preciso perguntar: se os Estados nacionais não têm mais o poder de decidir ou intervir no sistema de economia nacional, a quem pertence o poder de decidir, quem detém a soberania econômica?
A resposta para esta pergunta complexa e paradoxal encontra-se nos cânones e sacramentos daquilo que os liberais mais ingênuos chamam de “evolução natural do livre mercado”, mas que as pessoas que não acreditam nesse folclore conhecem pelo nome de Consenso de Washington. O que foi vendido nas últimas décadas como a inevitável vitória da globalização e da mão invisível do mercado foi um dos maiores esforços de planificação e regulamentação econômica que a humanidade já presenciou. A economia mundial foi metodicamente planificada e gerida por burocracias multilaterais, ditando regras desde a política de juros até os métodos de produção do terceiro mundo — o que simplesmente normalizou a soberania das grandes corporações em matéria de economia.
Se há alguma dúvida quanto a essa agenda de planificação, analise o projeto de “desintegração controlada” da economia mundial formulado ainda em 1977 pelo economista Fred Hirsch, sob a chancela do Council on Foreign Relations (CFR). O objetivo dos agentes orbitando o CFR nunca foi a verdadeira liberdade de trocas comerciais, mas a capacidade de planejar e gerir a economia global de cima para baixo. A “desintegração” controlada era a admissão de que o sistema precisava ser gerido em blocos, protegendo o núcleo financeiro de choques, e impondo uma divisão internacional do trabalho que reduziu nações inteiras a meros apêndices burocratizados de uma cadeia de suprimentos ditada por meia dúzia de lobistas e presidentes de grandes corporações.
Em seu discurso na Conferência de Segurança de Munique em 2026, o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, admitiu o inconfessável para as elites anglo-americanas: a desindustrialização do Ocidente não foi uma força incontrolável da natureza ou um mero efeito colateral da eficiência do mercado. Foi uma escolha política, uma decisão. As elites financeiras decidiram que era um excelente negócio transferir o parque industrial para a Ásia em troca de lucros rentistas, mão de obra barata para produtos manufaturados, destruindo a base da economia real de suas próprias nações para sustentar uma economia financeirizada. Tentaram planejar a economia mundial de forma tão estritamente utilitária e racionalista que acabaram pavimentando a própria decadência política.
Mas o caminho para fugir da decadência econômica e diplomática foi exposto na palestra do Representante de Comércio dos EUA (USTR), Jamieson Greer, no Fórum Econômico Mundial. Sob o título “The Hamiltonian Economic System That Too Many Have Forgotten”, Greer deveria ter dissipado as crenças liberais no mito da mão invisível da integração econômica.
O que Greer anunciou em Davos é uma retomada da “Economia de Produção”. Os Estados Unidos agora percebem que a verdadeira soberania exige o fomento de indústrias estratégicas, o uso de tarifas, subsídios estratégicos e o direcionamento do Estado para proteger os poderes produtivos da nação. Em síntese: como Alexander Hamilton (1755–1804) – que em seu programa econômico defendeu um governo central forte e o desenvolvimento manufatureiro – os EUA retomarão sua soberania econômica.