
Publicado em 24 de Outubro de 2026
“Na eleição, podemos fazer o diabo.” Dilma Rousseff disse isso em março de 2013, em João Pessoa. Em 2026, segundo Lauro Jardim, Lula usou expressão semelhante numa conversa reservada. A coincidência remete a uma forma de disputar o poder em que espalhar medo, deformar adversários e fazer promessas difíceis de cumprir se tornam instrumentos eleitorais. Depois da votação, os custos recaem sobre a população.
Em 2006, duas semanas antes do primeiro turno, dois homens ligados ao PT foram presos num hotel de São Paulo com cerca de R$ 1,7 milhão em dinheiro. Pretendiam comprar um dossiê contra José Serra, então candidato ao governo paulista. Lula chamou os envolvidos de “bando de aloprados”. O episódio expôs o uso de meios irregulares numa disputa eleitoral.
Em 2014, Marina Silva enfrentou uma ofensiva publicitária que associava suas propostas ao risco de perda de direitos trabalhistas e programas sociais. Naquele período, outra decisão já produzia consequências: a Medida Provisória 579, de 2012, havia reduzido as tarifas de energia em cerca de 20% em 2013. Após a reeleição de Dilma, vieram fortes reajustes em 2015, de 40% a 50% em diversas regiões, com picos superiores. Estudos do setor apontaram custos acumulados de dezenas de bilhões de reais, com estimativas que chegaram perto de R$ 200 bilhões ao longo dos anos. A promessa de energia barata terminou pesando na conta de luz.
Na campanha de 2026, sobretudo no segundo turno, voltaram as mensagens sobre supostas perdas de direitos e benefícios caso a oposição vencesse. Paralelamente, anúncios de benefícios, crédito e novas despesas, apresentados como um pacote superior a R$ 300 bilhões, levantaram uma questão que ninguém respondeu: de onde sairão os recursos e quem arcará com os compromissos depois da eleição?
Esse ambiente reduz o espaço para discutir resultados concretos. A crítica aos gastos pode ser recebida como ameaça aos mais pobres; a contestação de versões oficiais, como ataque às instituições. Em vez de examinar a execução das políticas, o eleitor é levado a debater cenários de medo. O eleitor tem direito a conhecer os custos de cada proposta, as fontes de financiamento e os resultados efetivos do governo, sem que perguntas legítimas sejam substituídas por acusações.
Quando vale tudo para ganhar uma eleição, nem Deus, família, pátria e liberdade escapam da conveniência. O PT incorpora esses símbolos ao discurso sempre que precisa conquistar votos, mas suas práticas frequentemente caminham na direção contrária. Invoca Deus nos palanques quando precisa do voto dos religiosos, mas deixa os princípios que diz defender de lado quando contrariam seus interesses políticos. Exalta a família no palanque, mas trata seus valores como obstáculos quando contrariam a agenda partidária. Fala em pátria enquanto assume compromissos que deixarão a conta para as próximas gerações. E exalta a liberdade para os seus, mas a esquece quando persegue opositores. São valores que não deveriam servir como acessórios de campanha, utilizados conforme a necessidade eleitoral.
A cada eleição, aumenta a aposta: mais medo, mais dinheiro, mais acusações. E menos disposição para responder pelo que foi feito. A frase de Dilma não envelheceu. Tornou-se uma confissão que o próprio Lula resolveu repetir. O problema é que, nesse jogo, o diabo fica com o marketing e a conta fica com o povo. O Brasil não pode continuar pagando para ser enganado.