A falta de consideração e o palanque das contradições

Publicado em 22 de Abril de 2026

Há uma perversão específica do populismo que Alexis de Tocqueville identificou com precisão no século XIX: o poder que se apresenta como tutor dos humildes enquanto, sistematicamente, os utiliza como instrumento de expansão própria. Trata-se de uma lógica funcional em que o discurso de proteção social legitima o aparato fiscal que consome o cidadão. Nesse contexto, o “imposto das blusinhas” surge como um caso de livro sobre o empobrecimento programado. Criada sob o pretexto da justiça tributária, a taxa revelou-se uma armadilha descartada pelo governo, dois anos depois, com o adjetivo cínico de “desnecessária”. Como sempre, o governo Lula tem enormes dificuldades em lidar com a verdade e assumir suas responsabilidades.

A história dessa política começou com uma contradição declarada. Em abril de 2023, o presidente Lula afirmou que compradores de produtos até US$ 50 eram “pessoas comuns” e que a isenção era uma “questão de consideração com o povo mais humilde”. A consideração durou apenas o necessário para a consolidação das negociações de bastidores. Meses depois, o governo articulou com o Congresso a aprovação de uma alíquota de 20%, vigente desde agosto de 2024. Na prática, com o efeito cascata dos tributos e a incidência do ICMS, um produto de R$ 100 passou a custar R$ 144,58 — uma carga real de quase 50% sobre o consumo popular.

O impacto social foi imediato e cruel. Entre agosto de 2024 e abril de 2025, o consumo das classes C, D e E nas plataformas internacionais despencou 35%, excluindo cerca de 14 milhões de brasileiros do acesso a bens que, no mercado interno, possuem preços proibitivos. Enquanto as classes A e B retraíram o consumo em apenas 11%, os mais pobres simplesmente desistiram: 29% da população abandonou as compras internacionais. Institucionalizou-se uma barreira de classe onde o acesso ao mercado global tornou-se, novamente, um privilégio restrito.

No campo econômico, o colapso dos argumentos governamentais foi total. A arrecadação real, que prometia R$ 700 milhões mensais, estagnou em R$ 175,8 milhões — um erro de cálculo de 400%. A promessa de proteger a indústria nacional provou-se uma falácia: a geração de empregos nos setores supostamente beneficiados foi de pífios 0,97%, menos de um terço da média nacional. Até os Correios, braço logístico do Estado, foram prejudicados e deixaram de arrecadar R$ 2,2 bilhões. Houve apenas a asfixia de um canal que democratizava o consumo. No governo do autointitulado “pai dos pobres, mais uma vez, os mais pobres saíram prejudicados.

Diante desse rastro de exclusão, a declaração de que a taxa é “desnecessária”, proferida em abril de 2026, soa como um verdadeiro deboche. O governo omitiu explicações sobre os dois anos de punição tributária e ignorou qualquer plano de ressarcimento aos milhões que pagaram a conta. Observa-se apenas, como sempre, a cínica virada de página para um novo palanque, onde a “consideração com o povo” é resgatada pela velha conveniência eleitoral. O estamento burocrático prova que a coerência é um luxo preterido; para o poder, o povo permanece como combustível que financia erros técnicos enquanto aguarda a próxima promessa descartável. 

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