RAÍZEN: o ativo que não pode cair nas mãos de qualquer um

A discussão sobre a Raízen está sendo tratada como se fosse apenas uma reestruturação empresarial. Não é. Trata-se de um ativo que concentra, ao mesmo tempo, infraestrutura energética, infraestrutura logística, segurança de abastecimento e um grau de irreplicabilidade que não se resolve em poucos anos.

A Raízen é a maior produtora de etanol de cana do mundo. É a maior exportadora global de açúcar, responsável por mais de 40% de tudo que o mundo importa deste produto. Opera mais de 8 mil postos de combustível, dezenas de terminais de distribuição e de bases de aviação, e controla quase 15% de toda a área de cana plantada no Brasil. Sozinha, movimenta R$ 255 bilhões por ano em receita. É um ativo central do abastecimento de energia e da operação logística do país.

Essa estrutura abastece combustíveis, produz energia e sustenta uma malha logística que dá suporte a boa parte do agronegócio e da mobilidade nacional. Tal escala e integração não se reconstroem com facilidade — e num cenário como o de Ormuz, é exatamente esse tipo de capacidade doméstica que faz a diferença.

A discussão aqui não é sobre estatizar a companhia. É sobre garantir que quem ficar com o controle desse ativo não possa usá-lo como instrumento de pressão contra o país. Abastecimento, logística e produção de energia são ativos que, nas mãos erradas, se tornam alavancas silenciosas sobre decisões que deveriam ser soberanas. Não podem ser tratados como algo comum. 

Por essas razões, o ponto central não deveria ser apenas a dívida.

A empresa está em dificuldades financeiras graves. Deve muito mais do que consegue gerar no curto prazo, e pediu a maior recuperação extrajudicial da história do Brasil, envolvendo R$65,1 bilhões em dívidas com bancos e investidores. Os donos ofereceram R$4 bilhões para equacionar o problema. Os credores querem R$25 bilhões. A distância entre as duas propostas já indica que, para fechar essa conta, provavelmente será preciso trazer alguém de fora.

Quando um ativo com essa relevância estrutural entra em crise, a questão deixa de ser apenas financeira e passa a ser quem assume o controle — e com qual intenção. Contudo, o tema ainda é tratado dentro de um enquadramento limitado, restrito ao mercado financeiro, como se uma infraestrutura com esse peso pudesse mudar de mãos sem qualquer consequência fora da própria operação.

Ativos assim não deveriam ser tratados como ativos comuns em processo de estresse. A depender de como a reestruturação evoluir, a discussão vai ultrapassar a capitalização da empresa — e aí o que se decide é quem passa a ter influência sobre uma estrutura crítica da economia brasileira. 

O Brasil já vendeu refinarias, hidrelétricas e campos de petróleo sob a lógica de que o mercado resolveria. Quando o controle foi embora, a capacidade de decisão foi junto, de maneira irreversível. A Raízen não deveria ser o próximo capítulo dessa história. Mas, se a discussão continuar sendo conduzida apenas em termos de dívida e reestruturação, o episódio será escrito sem que a maioria do país perceba o que perdeu.

Um ativo dessa natureza não deveria cair nas mãos de qualquer um.

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