Superávit de papel: a arte de esconder o boleto na gaveta

Publicado em 17 de Abril de 2026

O PLDO de 2027 confirma uma meta de superávit primário de 0,5% do PIB. No papel, o número impressiona e até sugere ordem na casa. No entanto, o próprio documento revela o truque: R$ 65,7 bilhões em despesas foram varridos para baixo do tapete. É como celebrar que o salário sobrou no fim do mês, mas omitir que a fatura do cartão ficou guardada na gaveta. Desse montante, a maior parte são precatórios, acompanhados de gastos com saúde, educação e defesa. A meta só fecha porque o governo decidiu que parte da conta simplesmente não entra no cálculo oficial.

Essa prática de “limpar” o resultado oficial removendo gastos indesejados da foto não é uma novidade. É a famosa contabilidade criativa, recurso muito utilizado por governos petistas. No passado, vimos o uso de bancos públicos para mascarar despesas e o represamento de repasses (as “pedaladas”) para forjar um equilíbrio que não existia.

O que muda agora é que a manobra não é feita às escondidas. Em vez de esconder o gasto, o governo cria uma lei que diz que aquele gasto específico “não conta”. O resultado prático é o mesmo: um distanciamento entre o que o governo diz que economizou e a realidade da dívida pública.

Os precatórios são aquelas dívidas que o governo perdeu na Justiça e esgotou os recursos. Em 2021, criou-se uma regra de sobrevivência: pelo menos 10% desses pagamentos devem ser registrados na meta anualmente para evitar um colapso total. Para 2027, o governo anunciou que vai registrar 39,4% dentro da meta.

Parece um avanço, mas a matemática real é dura: os outros 60,6% — nada menos que R$ 57,8 bilhões — continuam existindo, mas “invisíveis” para a meta. Como esse arranjo dura até 2036, teremos uma década inteira de uma contabilidade onde o governo gasta bilhões sem que ninguém possa acusá-lo tecnicamente de descumprir a lei. É o equivalente a parcelar uma dívida gigantesca e só anotar no caderno o valor da parcela, ignorando o tamanho do rombo total.

Para acalmar a Faria Lima após um 2025 no vermelho, o Planalto sacou dois mecanismos: travar novos benefícios fiscais e limitar o aumento da folha de pagamento em 0,6% ao ano. São medidas que resolvem as manchetes dos jornais, mas não atacam o cupim que rói a estrutura: as despesas obrigatórias.

Além disso, a meta tem uma “margem de erro” generosa. O superávit pode cair para 0,25% sem que o governo seja punido. Na prática, o resultado pode ser um déficit de R$ 29,1 bilhões e, ainda assim, o discurso oficial será de dever cumprido. Somando os R$ 65,7 bi fora da conta e essa tolerância de R$ 29,1 bi, o superávit anunciado vira uma peça de ficção administrativa.

No fim, essa engenharia tenta equilibrar a necessidade política de gastar e a necessidade econômica de manter a confiança de quem empresta dinheiro no país. Se a equipe econômica estivesse convicta de que a arrecadação daria conta do recado, não precisaria dessas camadas de proteção.

O mercado, porém, tem memória e faz a conta completa — incluindo o que está “fora da foto”. Quando a percepção é a de que o número oficial é maquiado, o risco sobe. O custo dessa desconfiança acaba embutido nas taxas de juros que circulam na economia, fazendo com que o alívio comemorado no papel pelo governo chegue com outro preço para o crédito ao consumidor e para o investimento no setor produtivo. O superávit de papel gera juro alto e bem real.

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