
Publicado em 03 de Outubro de 2026
O cristianismo, por definição, não pode ser completamente domesticado pela cultura, pois assim periga não ser leal a si mesmo e ao seu Senhor.
A cultura atual, que está amparada na utopia liberal do fim da história e do último homem — ideia levada a sério por parte da elite acadêmica brasileira após a queda do Muro de Berlim —, força a sociedade a um esforço permanente de despolitizar a vida coletiva, substituindo a decisão soberana e o confronto existencial pela mediação pretensamente neutra da lei, do mercado e da gestão tecnocrática.
Sob a ilusão de que todo desacordo pode ser reduzido a um problema técnico ou a um consenso procedimental, essa visão tenta apagar a essência originária do político: a divisão incontornável entre aliados e adversários, entre o “nós” e o “eles”, o conflito natural e comum entre cosmovisões cuja coexistência carrega sempre o horizonte limite do conflito real.
Longe de extinguir a tensão, contudo, a busca por neutralidade apenas a disfarça sob uma linguagem moralizante. Ao apresentar suas premissas como universais e evidentes, o sistema deixa de encarar a oposição como um adversário legítimo e passa a tratá-la como uma anomalia irracional ou um desvio ético a ser combatido em nome da própria ordem civilizada.
Um cristão que se abstém total e completamente da vida política de sua nação, sob o pretexto de que a política é suja e demasiadamente mundana, pode estar iludido com a possibilidade de uma neutralidade total da vida coletiva, que já se mostrou fracassada e inviável.
A Escritura ou a tradição cristã jamais aconselharam o crente a buscar a neutralidade absoluta e a se abster da política, nem afirmaram que a sua natureza é intrinsecamente má e incorrigível.
A tradição teológico-política cristã destitui o Estado de qualquer pretensão salvífica. Não é motor de redenção espiritual ou moral — é aparato coercitivo forjado para conter a barbárie da queda no Éden e garantir a manutenção da ordem social. Longe de instaurar a justiça plena, a engrenagem estatal visa à paz terrena: ordem material, punição para a injustiça e provisão dos meios para a vida e o bem comum. Por isso, é aceitável um dever cívico pragmático e desiludido, distante do messianismo, mas que dá a César o que é de César.
O engajamento institucional de um cristão deveria recusar dois extremos. De um lado, a idolatria que diviniza líderes e regimes. De outro, a omissão em nome da assepsia moral: quem se abstém do poder e, ainda assim, usufrui da segurança garantida pela força. A pureza inoperante parasita a ordem que finge desprezar.
É muito claro que o espírito do tempo pende para essa neutralidade — que privilegia o monopólio do poder nas mãos de uma pequena oligarquia sedenta de dominação —, e os cristãos não deveriam estar rendidos a essa armadilha ideológica, e muito menos tentar justificar sua posição afirmando o que a tradição e a Escritura jamais afirmaram.
Portanto, seria prudente que os cristãos do Brasil não se conformassem com as doutrinas utopistas dos tempos atuais — sejam as utopias de neutralidade técnica, sejam as de justiça social e do paraíso terreno —, mas, sem se conformar com este mundo, buscassem um equilíbrio entre o engajamento cívico e a idolatria do Estado e do poder: um equilíbrio de peregrino na terra, que compreende que é preciso viver neste mundo criado por Deus, mas que não poderá transformá-lo em paraíso por meio do Estado.
Um peregrino que cuida bem da terra onde faz morada, como alguém que cultiva um jardim pensando na próxima geração que poderá colher seus frutos.