
Publicado em 10 de Agosto de 2026
Uma cooperativa elétrica de Neuquén negociava com a Huawei a expansão de sua rede quando a briga entre Estados Unidos e China bateu à porta. Segundo a CALF, um funcionário da embaixada americana perguntou em julho se havia como cancelar o projeto, citando a política de restringir vistos de diretores ligados à Huawei. O aviso veio numa conversa, sem tarifa nem sanção formal, e ainda assim mudou o cálculo de risco de uma decisão que até ali era apenas empresarial.
A CALF levou a queixa ao governo argentino, alegando pressão fora dos canais oficiais e ameaça de retaliação a seus executivos. Washington nega ingerência, e o embaixador em Buenos Aires respondeu que todo país protege a própria casa e que visto é assunto de segurança nacional. A embaixada chinesa entrou na briga acusando os americanos de atrapalhar de propósito a cooperação entre as duas empresas.
O endereço explica o incômodo. Neuquén fica sobre Vaca Muerta, coração do boom de gás e petróleo argentino, e abriga desde 2014 uma estação espacial operada pelo governo chinês, que Washington acusa de servir também à vigilância. Quando uma empresa dali decide comprar equipamento da Huawei, a escolha passa a interessar a diplomatas e serviços de inteligência que nunca pisaram na província.
Milei administra esse aperto com pragmatismo. Recebeu do governo Trump uma linha de crédito de US$ 20 bilhões no ano passado, e em outubro o secretário do Tesouro americano disse que o presidente argentino estava comprometido em tirar a China do país. Na mesma semana da queixa, o governo argentino renovou por cinco anos o swap de US$ 19 bilhões que sustenta boa parte das reservas, e o chanceler prepara uma visita a Pequim antes de uma provável viagem de Milei.
O Brasil está ainda mais enredado que a Argentina. A chinesa State Grid controla uma fatia enorme da transmissão de energia nacional, e a Huawei está dentro das redes de todas as grandes operadoras. No porto de Paranaguá, o terminal de contêineres é operado por um grupo estatal chinês. Essas mesmas companhias captam em Nova York e giram dólar por bancos americanos. A tecnologia que usam depende, em boa parte, de licença dos Estados Unidos. Se a régua aplicada em Neuquén virar padrão, sobra pouca empresa grande no país sem um flanco exposto.
A Faria Lima ainda trata tudo isso como assunto de chancelaria. O mercado precifica juro e câmbio com duas casas decimais, mas não tem modelo para estimar quanto custa um fornecedor que virou problema diplomático. Esse custo não chega identificado. O negócio apenas encarece, atrasa ou deixa de acontecer, e a empresa raramente consegue provar onde terminou a decisão comercial e começou a pressão política.
Nos últimos anos, Lula gastou capital político comprando briga com Washington e não ganhou margem alguma com a China. O resultado tem sido menos portas abertas nos Estados Unidos, a dependência de sempre diante de Pequim e uma conta que tende a chegar primeiro no caixa das empresas. O desgaste é fabricado em Brasília; quem fecha contratos recebe a fatura.
A rivalidade entre as duas potências não dá sinal de trégua, e um eventual quarto mandato de Lula começaria com as pontes para Washington ainda mais queimadas. Se nada mudar até lá, quem paga o pato são as empresas brasileiras, muitas das quais calculam o risco do próximo governo apenas pela curva de juros, como se o que aconteceu em Neuquén não merecesse uma linha na mesma planilha.