
Publicado em 13 de Julho de 2026
Todo brasileiro sabe o preço das coisas em parcelas. A geladeira custa doze vezes de alguma coisa, o celular custa vinte e quatro, o carro se mede em anos de prestação, a viagem entra no cartão. O preço à vista virou uma curiosidade da etiqueta. Em poucos lugares do mundo se compra tão parcelado quanto aqui, e a gente se acostumou tanto que parou de achar estranho.
Deveria achar.
Parcelamos tudo porque o dinheiro, no Brasil, é caro demais para se ter de uma vez. E quando alguém pergunta por que o dinheiro custa tanto, as respostas de sempre aparecem: os bancos cobram muito, o governo gasta demais, os impostos pesam, o país é arriscado. Todas as respostas explicam um pedaço do problema. Nenhuma delas responde por que isso atravessa décadas sem mudar, independentemente de quem governe, nem por que países parecidos com o nosso convivem com dinheiro mais barato.
Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada: por que alguém emprestaria barato aqui?
Vale olhar para onde esse dinheiro vai. Quem tem uma sobra, seja uma família ou um banco, compara as opções antes de decidir. Emprestar para alguém comprar uma casa leva décadas para voltar. Financiar uma fábrica exige risco e paciência. Ao lado dessas escolhas existe uma alternativa que paga juros altos todos os dias e permite resgatar o dinheiro a qualquer momento: emprestar ao próprio governo brasileiro. Ninguém empresta barato num país em que a opção mais segura também é a que paga melhor.
Esse desenho não surgiu por acaso. Foi criado às pressas, na época da hiperinflação, quando o governo já não conseguia encontrar quem aceitasse financiá-lo por prazos longos. A solução resolveu um problema. A inflação acabou, mas o título ficou, e duas gerações aprenderam a poupar comparando qualquer investimento com essa referência.
O CDI que aparece hoje em qualquer aplicativo de banco é o nome moderno dessa herança.
O resultado aparece na vida de qualquer brasileiro. Se o dinheiro parado rende bem e pode ser resgatado a qualquer momento, emprestar por muitos anos passa a custar caro. O financiamento da casa devolve ao banco o preço de duas, o carro dobra no carnê e o crédito que mantém o pequeno comércio funcionando consome boa parte da margem. A fábrica, que precisaria de alguém disposto a esperar dez anos pelo retorno, simplesmente encontra cada vez menos dinheiro disponível.
Não há nada de errado em buscar segurança para as próprias economias. Qualquer pessoa faria o mesmo. O problema é um país inteiro funcionar dessa forma. O que protege cada poupador, quando multiplicado por milhões de decisões iguais, acaba deixando a nação sem quem financie aquilo que ela precisa construir.
Lá fora, as grandes potências deixaram de tratar o crédito como um assunto exclusivo dos bancos. Voltaram a discutir quem financia as fábricas, a inovação e a tecnologia de cada país. Até nos Estados Unidos, onde nasceu o mercado financeiro moderno, já existe um debate sobre limitar os juros cobrados no cartão de crédito.
Corrigir esse desenho não exige genialidade nem ruptura. Exige um governo que inspire confiança, mantenha as contas em ordem e tenha coragem para mudar, aos poucos, a estrutura da dívida pública, fazendo com que financiar quem produz volte a ser mais interessante do que apenas esperar. As duas coisas precisam caminhar juntas. Talvez seja justamente por isso que essa mudança nunca aconteça: quem conquista a confiança não quer mexer no sistema, e quem promete mudar o sistema normalmente não conquista a confiança.
Enquanto isso não acontece, o brasileiro continua fazendo a conta em parcelas. Não porque goste, mas porque foi obrigado a viver num país em que o crédito caro deixou de ser exceção e passou a parecer normal.
Porque ninguém reduz juros por decreto. Eles caem quando passa a valer mais a pena financiar quem produz do que simplesmente esperar.