
Publicado em 11 de Julho de 2026
Já percebeu que todo dia o governo inventa alguma boa nova? Desemprego na mínima histórica, PIB crescendo na margem, bolsa animada, sempre algum comercial pra dizer que vivemos, sem perceber, uma espécie de milagre. Curioso é que esse milagre não bateu na porta da dona de casa que faz a conta no corredor do supermercado, e muito menos na do sujeito que renegociou a fatura do cartão pela terceira vez no ano. Nos gráficos de Brasília o Brasil vai muito bem. Mas ,no caixa do mercado, está achincalhado.
Os números que o governo deixa de fora contam outra história. O endividamento das famílias bateu 80,9% em abril, recorde absoluto pelo quarto mês seguido. Mais de 12% dos endividados já admitem que não vão conseguir pagar. E a poupança, aquele colchão que o brasileiro guardava para o susto, perdeu quase 40 bilhões só no primeiro semestre. É o décimo primeiro semestre em que se tira mais do que se põe. Se o país está comendo a própria reserva de tempos ruins, os tempos ruins chegaram.
Os economistas do governo dizem que dívida é sinal de confiança, que consumidor endividado é gente acreditando no futuro. O endividamento que mais cresceu foi justamente o das famílias de renda média, gente que usa crédito para não derrubar o padrão. Fora a turma lá de cima, não existe hoje uma faixa sequer que feche o mês no azul. A classe média que sonhava juntar para o apartamento agora financia geladeira, remédio e a pizza de domingo.
Esse aperto começa na Selic em 14,25% ao ano, a segunda maior taxa real de juros do planeta (atrás só da Rússia, que está em guerra desde 2022), que engorda as prestações. Juro assim não cai do céu, ele é a conta que o Banco Central cobra da bagunça fiscal de um governo que gasta como se o dinheiro fosse do vizinho. Governo, aliás, que aperta a máquina de impostos com cada vez mais frequência, fechando a carga tributária de 2025 no recorde de 32,4% do PIB – e o grosso disso o brasileiro paga sem enxergar, embutido no arroz, no feijão e na conta de luz.
O próprio Ministério da Fazenda soltou um estudo mostrando que a maioria dos brasileiros entrega de 45% a 50% do que ganha em imposto. Quem carrega o Estado inchado nas costas é a classe média, é o camarada do salário mínimo, bancando a mesada dos amigos do rei. O governo que se vende como defensor dos pobres criou a máquina mais eficiente de espremer pobre que este país já viu.
A esperança, como todo o resto, está ficando cara. Em 2022 o salário mínimo comprava duas cestas básicas, hoje mal chega a uma e três quartos. O Dieese calcula que o mínimo digno para uma família de quatro deveria passar de seis mil reais. Não sobra para poupar, não sobra para sonhar, e o crédito, que devia servir para antecipar um futuro melhor, virou muleta para fechar o presente.
A lição é das mais antigas, e o povo já está sentindo na pele: não existe almoço grátis. Toda a propaganda de que “os pobres voltaram a comprar” não muda a realidade que o cidadão vive na fila do caixa. E a realidade, hoje, é um país sem gordura para queimar, à espera de que Brasília pare de comemorar e olhe para o bolso de quem paga a conta.