O maior banco privado da América Latina é também o maior devedor da cidade de São Paulo

Publicado em 06 de Julho de 2026
Em fevereiro de 2019, vereadores da CPI da Sonegação Tributária da Câmara Municipal de São Paulo viajaram até Poá, na Grande São Paulo, para conhecer a sede do Itaucard, braço de cartões do Itaú. O endereço registrado era uma sala de 14 metros quadrados na sobreloja de um supermercado. Em outro imóvel, onde deveriam funcionar cerca de vinte empresas do grupo, encontraram meia dúzia de funcionários cercados por fileiras de mesas vazias. O relatório da CPI concluiu que o ambiente parecia preparado para aparentar uma operação que, na prática, não existia.
O motivo da mudança era tributário. Enquanto São Paulo cobrava 2% de ISS, Poá cobrava apenas 0,25%. A lei permite que uma empresa transfira sua sede para outro município. O que não é permitido é transferir apenas o endereço. Na CPI, os diretores do banco foram perguntados, sob compromisso legal, quantos já haviam estado em Poá. Nenhum levantou a mão. As atas de assembleias supostamente realizadas na cidade foram consideradas falsas, e a comissão sugeriu o indiciamento dos responsáveis por falsidade ideológica e organização criminosa. O banco preferiu fazer um acordo. Transferiu oficialmente as sedes para São Paulo, onde as atividades realmente eram desempenhadas, e a convocação dos dirigentes foi encerrada.
A mudança de endereço não encerrou a disputa. Em março deste ano, a Prefeitura de São Paulo publicou, pela primeira vez, a lista dos cinquenta maiores devedores inscritos na dívida ativa do município. No topo apareceu o grupo Itaú, com R$ 20 bilhões em débitos, cerca de 35% de todo o valor devido pelos cinquenta maiores devedores. O segundo colocado, o Facebook, aparece com R$ 3,9 bilhões. A distância entre o primeiro e o segundo impressiona mais do que qualquer adjetivo.
O Conselho Municipal de Tributos vem rejeitando os recursos do banco e aplicando multa qualificada, reservada aos casos em que a administração entende haver intenção deliberada de lesar o fisco. Em outro processo, o mesmo conselho condenou o Itaú por registrar receitas de comissão do marketplace como “divisão de lucros”, classificação que dispensaria a emissão de notas fiscais. O Ministério Público sinalizou a possibilidade de denúncia criminal. Em junho, a CPI do Devedor aprovou a convocação do diretor financeiro do grupo. Bradesco, Caixa e Santander deverão ser chamados na sequência.
O Itaú afirma que cerca de 85% dos valores não pertencem à capital, pois o ISS teria sido recolhido regularmente a Poá entre 1992 e 2019. Sustenta também que a cobrança feita por São Paulo caracteriza dupla tributação. Em outras palavras, a defesa depende de reconhecer como sede fiscal de um dos maiores conglomerados financeiros da América Latina o endereço que a fiscalização encontrou funcionando na sobreloja de um supermercado.
Existe uma diferença que chama atenção. Quem atrasa o IPTU costuma ter o nome protestado, enfrentar restrições de crédito e sofrer cobranças em poucos meses. O maior devedor do maior município do país discute R$ 20 bilhões há anos com o caixa preservado, o rating intacto e presença garantida nos debates sobre responsabilidade fiscal. Segundo a Prefeitura, esse valor seria suficiente para construir cerca de cem hospitais de grande porte ou quatrocentas escolas públicas.
Os diretores do Itaucard disseram que nunca estiveram em Poá. Pela contabilidade do banco, o ISS passou quase trinta anos morando lá.