Bets ilegais: o governo que lucrou com o vício agora quer posar de salvador

Depois de regulamentar apostas e transformar a miséria em fonte de arrecadação, o governo tenta vender como solução uma ofensiva contra bets ilegais e influenciadores, enquanto deixa de lado as famílias destruídas pelo vício.

Publicado em 29 de Junho de 2026

O governo Lula descobriu, com atraso aparentemente calculado, que as bets podem destruir famílias. Agora posa como defensor dos vulneráveis, anunciou recentemente bloqueio de recursos de plataformas ilegais e mira influenciadores que divulgaram casas de apostas irregulares.

O mesmo governo que agora fala em combater o estrago provocado pelas apostas foi o governo que regulamentou o setor, abriu caminho para a arrecadação e aceitou transformar o vício em política fiscal. O discurso oficial mudou de tom, mas a lógica continua a mesma: quando o brasileiro perde dinheiro, Brasília encontra uma forma de arrecadar.

As novas medidas miram bets ilegais, instituições financeiras que movimentam recursos dessas plataformas e influenciadores que lucraram promovendo apostas irregulares. É correto que quem ganhou dinheiro vendendo ilusão para sua audiência seja responsabilizado. Durante anos, influenciadores empurraram o “joguinho do tigrinho”, bônus milagrosos e promessas de dinheiro fácil para jovens, desempregados e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Muitos lucraram com a destruição alheia.

O problema é que a resposta do governo parece mais preocupada em recuperar imposto do que em recuperar vidas. A solução apresentada é, antes de tudo, uma solução para o caixa do Estado. Bloqueia-se o dinheiro das bets ilegais, amplia-se a responsabilidade tributária, cobra-se de quem divulgou, transfere-se recurso para fundos públicos e pronto: o governo posa para foto como se tivesse resolvido o problema.

Mas e as famílias?

E as pessoas endividadas que continuam apostando? E os jovens que entraram nesse ciclo por influência de celebridades digitais? E os trabalhadores que gastaram salário, limite do cartão e dinheiro de casa acreditando que poderiam virar o jogo? E os casos de depressão, separação, inadimplência e suicídio ligados ao vício em apostas?

Para essas vítimas, não há plano proporcional ao tamanho do desastre.

O discurso oficial separa as apostas em dois mundos: as “regulares”, que pagam impostos, e as “ilegais”, que precisam ser combatidas. Mas, para a família que perdeu tudo, a diferença entre uma bet autorizada e uma bet clandestina pode ser irrelevante. O estrago psicológico, financeiro e moral não depende apenas do carimbo do Ministério da Fazenda.

A legalidade não torna o vício menos destrutivo.

É claro que combater bets ilegais é necessário. É claro que influenciadores que promoveram plataformas irregulares devem responder pelo que fizeram. É claro que o crime organizado pode se aproveitar desse mercado e precisa ser enfrentado. Mas nada disso apaga a hipocrisia de um governo que primeiro institucionaliza a arrecadação sobre apostas e depois tenta se apresentar como protetor das vítimas.

A lógica é conhecida. Primeiro, o Estado permite que o problema cresça. Depois, aparece como salvador. No meio do caminho, arrecada.

O vício em apostas virou uma tragédia nacional porque encontrou o ambiente perfeito: crise econômica, famílias apertadas, juventude sem perspectiva, influenciadores sem escrúpulo e um Estado mais interessado em tributar do que em proteger. Quando o trabalhador não enxerga futuro no esforço, a promessa do ganho fácil vira armadilha. E quando o governo lucra com essa engrenagem, perde autoridade moral para fingir surpresa.

A nova ofensiva contra bets ilegais pode até produzir manchetes positivas. Pode dar ao governo o sabor de justiça que sempre tenta vender. Mas, se a resposta continuar limitada a bloqueio de recursos, cobrança tributária e punição seletiva de divulgadores, o coração do problema seguirá intocado.

Não custa perguntarmos: o governo quer salvar os viciados ou apenas garantir que alguém pague imposto sobre o vício?

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