O fim do “braço invisível” e o avanço da direita

O ex-funcionário do Departamento de Estado americano Mike Benz publicou no X uma frase direta: “Bolsonaro ainda seria presidente do Brasil se a USAID não tivesse interferido massivamente na eleição de 2022 para Lula”. 

Não é a primeira vez que Benz fala sobre isso. Em audiência na Câmara dos Deputados, ele já havia afirmado, de forma detalhada, que a USAID atuou como um dos principais instrumentos de interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2022. Segundo ele, a agência americana financiou uma rede de ONGs, organizações de “fact-checking”, veículos de imprensa e grupos de ativistas com o objetivo de restringir a liberdade de expressão nas redes sociais e deslegitimar qualquer questionamento sobre o sistema eleitoral eletrônico. Benz também relatou que autoridades americanas, incluindo representantes da CIA e do Departamento de Estado, atuaram para desestimular o governo Bolsonaro de contestar as urnas e para garantir que as Forças Armadas não questionassem o resultado. 

O que torna a declaração de Benz ainda mais relevante é o que aconteceu depois que o governo Trump cortou os recursos da USAID. Desde então, sete eleições na América Latina foram vencidas por candidatos de direita: Chile, Bolívia, Peru, Equador, Honduras, Costa Rica e, agora, na Colômbia. Em todos os casos, candidatos alinhados ao conservadorismo derrotaram candidatos de esquerda. É difícil não notar o padrão: enquanto a USAID mantinha fluxo de recursos para projetos de “fortalecimento da democracia” e “combate à desinformação”, a esquerda mantinha vantagem competitiva. Quando o financiamento foi interrompido, a tendência se inverteu rapidamente.

No caso brasileiro, o impacto dessa atuação foi especialmente sentido na campanha de Jair Bolsonaro em 2022. A narrativa de que o ex-presidente representava uma ameaça à democracia foi amplificada de forma coordenada por veículos e organizações que recebiam recursos indiretos ou diretos de programas americanos. A pressão pela regulação das redes sociais, o cerco judicial contra perfis conservadores e a construção de uma imagem internacional negativa de Bolsonaro contaram com apoio logístico e financeiro de estruturas que, segundo Benz, tinham ligação com a USAID. O resultado foi uma campanha em que o então presidente enfrentou não apenas a oposição interna, mas também uma narrativa global construída com recursos públicos americanos.

Hoje, a preocupação com “interferência estrangeira” parece ter mudado de lado. O presidente Lula e membros de seu governo têm repetido com frequência alertas sobre possíveis intervenções americanas no Brasil. O tom mudou radicalmente. O que antes era tratado como “cooperação internacional” e “apoio à democracia” agora é visto com desconfiança, por que a preocupação se o governo de Donald Trump cortou a verbas da agência? 

Se a USAID realmente atuou de forma neutra em 2022, por que seu desmantelamento gerou uma onda tão clara de vitórias conservadoras em toda a América Latina? 

A resposta mais honesta talvez seja incômoda: a chamada “ajuda internacional” raramente é apenas ajuda. Talvez a preocupação seja que, sem ela, os resultados eleitorais tendem a refletir mais fielmente a vontade dos eleitores locais — e não dos financiadores externos.

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