
Publicado em 16 de Junho de 2026
Em 12 de junho, o governo dos Estados Unidos proibiu o acesso de estrangeiros aos dois modelos de inteligência artificial mais avançados de uma das maiores empresas do país. A proibição valeu para qualquer estrangeiro, dentro ou fora do território americano, incluindo os funcionários estrangeiros da própria empresa. A companhia disse discordar da decisão, mas teve de cumpri-la e desligar os modelos no mesmo dia. O acesso à tecnologia foi tratado como questão de segurança nacional.
O episódio mostra como os governos passaram a enxergar a inteligência artificial. Dario Amodei, que dirige a Anthropic, costuma dizer que ela será a principal fonte de poder econômico e militar das próximas décadas, e compara sua importância à das armas nucleares. Um país que fique alguns anos atrás dos líderes, para ele, não terá como competir nem se defender. Quem diz isso fabrica a tecnologia, e o governo americano já a trata com esse peso.
A vantagem de quem está à frente não vem só dos modelos. Vem de uma base material: os chips que os fazem funcionar, os minerais usados nesses chips e a energia que abastece os centros de dados. Os Estados Unidos já organizam um grupo de países aliados que compartilham essa estrutura entre si e restringem o acesso dos demais. Já limitaram a venda de chips avançados à China e agora estenderam esse controle aos próprios programas de inteligência artificial. Foi com muito dinheiro público e pesquisa militar, ao longo de décadas, que construíram essa liderança, e é assim que pretendem mantê-la. O Brasil não faz parte do grupo.
O que costuma passar despercebido é que o país tem dois dos recursos de que esse grupo precisa. O primeiro são as terras raras, minerais essenciais para equipamentos eletrônicos. O Brasil tem a segunda maior reserva conhecida, atrás apenas da China. Em 2025, a China restringiu a exportação desses minerais e deixou a indústria ocidental sem alternativa imediata. Em novembro, uma agência do governo americano destinou até 465 milhões de dólares a uma mineradora brasileira do setor. Empresas e governos estrangeiros já procuram o país em busca de fontes fora do alcance chinês.
O segundo recurso é a energia. Os centros de dados que sustentam a IA consomem muita eletricidade, e a falta dela já limita a expansão do setor no mundo. O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas entre os grandes países, com mais de 80% da eletricidade vinda de fontes renováveis e, ao mesmo tempo, é um produtor de petróleo em crescimento, a caminho de mais de cinco milhões de barris por dia até o fim da década. Energia limpa e fóssil em quantidade é justamente o que pesa na hora de decidir onde instalar essa infraestrutura.
Os dois recursos dão ao Brasil poder de negociação, mas só se forem usados assim. O que o país costuma fazer é vender o minério bruto e a energia barata e comprar de volta o produto final, com a maior parte do valor ficando fora. Hoje boa parte da economia, do sistema financeiro e do próprio Estado já funciona sobre modelos de inteligência artificial estrangeiros, os mesmos que, como se viu em junho, podem ser desligados por uma decisão tomada em outro país.
Vendidos dessa forma, as terras raras e a energia continuam sendo apenas exportação de matéria-prima. O país entrega o que dá vantagem aos outros e compra de volta uma tecnologia sobre a qual não tem controle. É esse o lugar do Brasil na disputa.