
Publicado em 13 de Junho de 2026
Não é figura de linguagem, nem pessimismo de analista de mercado. É dado oficial da Confederação Nacional do Comércio (CNC): 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas. Oito em cada dez. É o maior patamar da série histórica desde que o indicador começou a ser medido. O Brasil, sob o manto de um discurso oficial que promete a volta da prosperidade, bateu o recorde que ninguém queria bater.
Antes que surja o primeiro palpiteiro de rede social para decretar, com a arrogância típica de quem tem a barriga cheia, que “o brasileiro não sabe se organizar”, convém olhar os dados. Na faixa de quem ganha até três salários mínimos, o endividamento salta para assustadores 84,6%.
Ninguém nessa fatia da população está devendo porque trocou o celular por um modelo de última geração ou porque programou as férias dos sonhos. O brasileiro está devendo porque parcelou a compra do mês no cartão, entrou no cheque especial para a conta de luz não ser cortada, ou porque precisou de um empréstimo para comprar o remédio. A dívida se transformou em ferramenta de sobrevivência. O cartão de crédito virou uma extensão desesperada do salário que some muito antes do fim do mês.
Essa asfixia do cidadão comum é o reflexo de um Estado que opera na mesma lógica do desespero financeiro. Enquanto o trabalhador tenta esticar o salário, o governo promove uma maratona arrecadatória atrás de receitas, somando mais de 35 medidas de aumento, criação ou revisão de impostos desde 2023 — espremendo o bolso do cidadão comum desde as compras internacionais mais simples até o combustível.
Mas nem a máquina de arrecadar em rotação máxima consegue cobrir o rombo de Brasília. A despesa pública expandida empurrou a Dívida Pública Federal para o patamar inédito de R$ 8,7 trilhões. E a conexão entre a dívida do governo e a sua dívida pessoal é direta: para sustentar e rolar essa montanha de trilhões — cuja metade está atrelada à taxa Selic —, os juros básicos precisam continuar nas alturas. Com o governo consumindo a maior parte do crédito disponível no país para financiar seus próprios déficits, o dinheiro fica escasso e os juros do cartão, do cheque especial e do crediário disparam na ponta final para o consumidor. É o prêmio de risco de um país que gasta o que não tem.
A realidade morde o calcanhar do trabalhador, mas o palanque ferve. Em maio, o governo relançou o programa Desenrola com pompa e circunstância, vendendo bilhões em renegociações como um grande alívio popular. Mas o desenho da engrenagem mostra quem sorri por último. Os grandes bancos limparam de seus balanços um dinheiro que já consideravam perdido, e agora abocanham o FGTS — a reserva financeira do trabalhador — direto para os seus caixas, com garantia estatal.
O paradoxo é cruel: o mês do anúncio do Desenrola 2.0 foi o mesmo mês que carimbou o recorde histórico de endividados. E o abismo só vai aumentar. A torneira dos gastos públicos continua aberta, o governo gasta o que tem e o que não tem, e a conta é empurrada para o cidadão comum.
O governo pode escolher a dedo a narrativa que vai estampar em suas propagandas e o otimismo artificial que vai ditar nos discursos. Mas a maquiagem da assessoria de imprensa esbarra na realidade. O governo escolhe o que diz no palanque, enquanto o trabalhador tem que escolher qual conta vai deixar de pagar no fim do mês.
A verdade é nua, crua e não aceita renegociação: o marketing engana, mas o boleto não perdoa.