Um Projeto Inacabado

Publicado em 27 de Dezembro de 2025

O caos intelectual em matéria de política no Brasil é tamanho que dificulta uma definição do que pode ser a tradição política e institucional do país. Doutrinas estrangeiras são incorporadas em constituições abstratas e pouco funcionais, formalizando um arranjo institucional que não tem limites claros para o exercício do poder, mas é deficiente para garantir direitos individuais e uma ordem política estável.

No Brasil, o que se sabe é que a máquina pública — inclusive chamada assim, já habituada à sua natureza burocrática, disfuncional e impessoal, tal como uma máquina enguiçada que raramente funciona — servirá aos interesses das oligarquias históricas nacionais, aos donos do poder.

O aparato institucional brasileiro nunca formalizou a separação que gregos e romanos tanto se esforçaram para desenhar: a diferença entre espaço privado e público, a distinção entre oikos e polis.

O arranjo institucional nasceu oligárquico e patrimonialista com as capitanias hereditárias, organizou-se em torno da figura do donatário e, após o golpe republicano, as elites confortavelmente não se preocuparam em desenvolver uma tradição política que trouxesse maturidade às instituições. Até os dias de hoje, a distinção entre privado e público, cidadão e estrangeiro, inimigo do Estado e desafeto político permanece indiscernível, demonstrando o quão distantes estão a estabilidade e a civilização.

Já na antiga Grécia, a sociedade política nascia com o domínio da terra, a sobreposição da vontade humana sobre a natureza. A sociedade política, portanto, funda-se na imposição da vontade humana sobre as forças da natureza. Essa tomada da terra gera uma primeira orientação dos espaços: privado e público, terra cultivável e espaço para construção, lar, divisão e areópago.

E é justamente essa tomada da terra, esse domínio da natureza, que foi alienado da tradição política brasileira. É possível notar, não apenas na opinião política do cidadão comum, mas também em vários membros da classe falante, um ímpeto revolucionário, um desejo de reforma abrupta da natureza e da história do Brasil. O poder público, as elites e todo o arranjo institucional vigente precisam ser derrubados por completo ou combatidos até a exaustão.

Sendo impossível estabelecer a ordem política através do domínio da terra, a revolução e a reforma da natureza humana chegam a parecer plausíveis, porque a política não está no horizonte de possibilidades do brasileiro. O terror existencial diante da natureza indomada faz parecer necessária uma reforma completa de toda a estrutura política da nação, sem que a mudança gradual e as articulações de base sejam uma opção. Em Canaã, o diplomata Graça Aranha utiliza a natureza como um símbolo central para explorar a relação do brasileiro com o ambiente e com o próprio processo civilizatório.

No Brasil, não houve um processo de divisão da terra e demarcação dos bens públicos; a natureza não foi domada em prol de um projeto de vida comum. As instituições permanecem tão opressoras para o cidadão brasileiro quanto a força esmagadora da natureza. A reconstrução do Brasil passa por uma nova divisão e pela apresentação de um projeto de vida comum; passa pela inclusão dos brasileiros na vida institucional nacional e pela unidade entre nação e Estado. A reconstrução do Brasil passa pela apresentação de um projeto político nacional, que integrará a vida do cidadão à vida política nacional.

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