
Por Carlos de Freitas – Host 5º Elemento
Falar sobre geopolítica hoje em dia é como tentar desmontar uma bomba-relógio com uma colher de chá: qualquer movimento em falso e tudo pode explodir em argumentos inflamados, análises desencontradas e manchetes histéricas. Mas a realidade é teimosa e não se dobra a narrativas fáceis.
A guerra na Ucrânia, a reaproximação entre grandes potências e a ascensão de Donald Trump a um segundo mandato não são peças soltas num tabuleiro – são parte de um jogo de interesses onde ideologia pesa menos do que estratégia, e onde os vencedores não são os mais virtuosos, mas os mais habilidosos na arte da negociação.
Se há algo que 2025 vem nos ensinando, é que a política internacional não é movida por discursos bonitos, mas por acordos que nem sempre fazem sentido à primeira vista.
Donald Trump não é apenas um personagem na política americana; ele é um fenômeno global que redefine as regras do jogo onde quer que se envolva. Na guerra entre Rússia e Ucrânia, sua figura paira como uma sombra incômoda para ambos os lados – e para o establishment ocidental. Seu posicionamento não segue a narrativa tradicional da Casa Branca, tampouco se alinha aos interesses de Vladimir Putin de maneira explícita. Ele opera num eixo próprio, onde o pragmatismo econômico, desconfiança do globalismo e uma política externa transacional (ao fato de que ele a trata como um negócio, e não como uma missão moral ou ideológica) moldam sua visão sobre o conflito.
O que realmente distingue Trump na questão ucraniana não é sua postura pró-Rússia, como muitos tentam insinuar, mas sim seu desprezo pela lógica da guerra infinita e seu instinto empresarial. Ele vê a Ucrânia como um cliente que precisa justificar cada centavo que recebe, e não como uma cruzada moral onde os EUA devem despejar recursos ilimitados. Isso o coloca em desacordo com o establishment de Washington, para quem apoiar Kiev se tornou uma questão de dogma.
A relação entre Trump e Putin sempre foi alvo de especulações e teorias da conspiração, mas a verdade é mais simples (e mais incômoda para seus críticos): os dois se respeitam porque se reconhecem um ao outro como jogadores do mesmo tipo de jogo. Trump, assim como Putin, não é um político tradicional, não opera dentro das regras convencionais da diplomacia. Ambos entendem que a geopolítica não é um campo de batalha de valores abstratos, mas um tabuleiro de interesses.
Isso não significa que Trump “gosta” de Putin, mas sim que ele compreende o líder russo de uma maneira que os burocratas de Washington jamais conseguiram. Enquanto Biden e seus aliados veem a Rússia como um vilão de desenho animado, Trump vê um adversário pragmático, alguém com quem se pode negociar desde que os termos sejam bem estabelecidos. Daí sua famosa frase de que, se estivesse na Casa Branca, Putin “jamais teria invadido a Ucrânia” – não por temor moral, mas porque a imprevisibilidade de Trump tornava a jogada arriscada demais para Moscou.
Outro elemento central da visão de Trump sobre a guerra é sua postura em relação à Europa. Desde sua primeira campanha, ele critica os aliados da OTAN por dependerem excessivamente do orçamento americano para sua defesa. Para Trump, o apoio irrestrito dos EUA à Ucrânia não faz sentido enquanto países como Alemanha e França não assumirem sua parte na conta.
Seu argumento não é só econômico, mas também estratégico: se os europeus acreditam que a Rússia é uma ameaça existencial, por que não estão investindo proporcionalmente? Essa linha de raciocínio não apenas desafia a estrutura da OTAN, mas também ameaça um dos pilares da política externa americana desde a Segunda Guerra Mundial: a garantia de segurança incondicional aos aliados.
Com Trump agora no poder, podemos esperar uma pressão intensa sobre os europeus para que assumam um papel maior na guerra – ou para que aceitem uma negociação com Moscou. A ideia de continuar despejando bilhões na Ucrânia sem um plano claro de vitória ou uma saída honrosa não parece compatível com sua abordagem transacional.
O que aconteceu na reunião na Casa Branca não foi apenas um encontro entre aliados, mas um choque frontal entre duas realidades: de um lado, um líder que ainda acredita no apoio incondicional do Ocidente para derrotar a Rússia; do outro, um negociador que não vê mais sentido em manter essa guerra aberta sem um ganho estratégico claro para os Estados Unidos.